Literatura infantil no fundamenta 1

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José Hélder Pinheiro Alves

Quem viveu no sertão do Nordeste até pelo menos a década de 60 do século XX pode
Testemunhar e até ter sido protagonista de uma singular experiência com poesia. Poesia
genuinamente popular, com sabor rural, vendida em folhetos, sobretudo em feiras, pelos
próprios poetas ou por vendedores ambulantes. O nome desta literatura, no meio do povo,
não eraliteratura de cordel. Chamavam de folheto, ou folhetos de feira, e quando a narrativa
era mais longa recebia o nome de romance
Antônio Lucena, cordelista e xilogravurista
paraibano, contou-nos que quando chegou a Campina Grande, na década de 50, havia na feira
central mais de cinco vendedores de folhetos. E como se dava a performance desses
vendedores? Muitas narrativas eram cantadas, outrasrecitadas. Um procedimento comum era
suspender a leitura para que os ouvintes comprassem o folheto se quisessem saber o final da
estória. E havia narrativas para todos os gostos: animais que falavam, batalhas, estórias de
amor, acontecimentos marcantes (tanto em nível local quanto regional ou nacional), pelejas
(uma das formas do cordel mais trabalhadas). E havia também narrativas mais picantes, quecirculavam mais de boca em boca.
Esta experiência sofreu inúmeras modificações a partir da década de 60, sobretudo com o
encarecimento do papel, que contribuiu para significativa diminuição do volume de vendas.
Hoje, são raros os vendedores de feira. Em Campina Grande, o último que resistia era o poeta
Toinho da Mulatinha, em sua banca de ervas e pinga. Mas já octogenário, o poeta não podemais se deslocar até a feira.
Viajando no lombo de burros e jumentos, inúmeros nordestinos se deslocaram para as feiras
levando milho, feijão, algodão para lugarejos próximos ou distantes, muitas vezes nas
POESIA E ESCOLA 18 .imediações de uma estação ferroviária. Quando voltavam, traziam mantimentos como sal,
sabão, açúcar e tantos outros que não produziam. Muitos traziam também um folhetopara ser
lido por alguém da família que fosse alfabetizado. E uma informação curiosa: vários
velhinhos que entrevistei nunca viram os tais folhetos pendurados em barbantes, como se
apregoou tanto. Parece que esta é uma das invenções mais recentes. Normalmente os folhetos
eram conduzidos em malas, que eram postas no chão e, em cima delas, se colocavam os
folhetos. Cheguei a ver em ruas deFortaleza dezenas de folhetos no chão, em cima de
plástico, muitas vezes com pedrinhas por cima para não voarem.
Durante o século XX, milhares de folhetos foram escritos nos mais diferentes recantos do
Nordeste e também nas regiões Norte e Sudeste, levados pelas inúmeras ondas de imigração.
Muitos folhetos se perderam, outros tantos foram recolhidos em bibliotecas particulares e
públicas. Para seter uma idéia de quão prolífera foi a produção de alguns destes poetas, ainda
hoje em plena atividade, chegam à casa de 500 publicações. É o caso, por exemplo, de José
Costa Leite. Manuel Monteiro, daqui de Campina Grande, em plena atividade, já escreveu
mais de 100 folhetos.
Os tempos mudaram, a sociedade urbanizou-se com uma rapidez assustadora. Mas os folhetos
não ficaram para trás. Talveznão tenham mais a mesma função social, e, com certeza, não
estão mais na maioria das feiras. O espaço que vem se tornando o alvo dos cordelistas é a
escola. E o folheto tem chegado à escola por diferentes motivos. Para uns, é uma excelente
fonte de conhecimentos históricos – figuras como Getúlio Vargas e Padre Cícero foram temas
de dezenas de folhetos. Para outros, é uma forma de levar conteúdosescolares de modo mais
leve, brincalhão – são tantos cordéis sobre ecologia, prevenção de doenças sexuais, primeiros
socorros, regras gramaticais e outros conteúdos didatizados. Outros, ainda, cultivam os
cordéis de caráter mais lúdico, que contam histórias, mas sem necessariamente colocar em
primeiro plano a informação ou a lição de moral.
Quando perguntamos a um cordelista ou a um...
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