Hanna arendt

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HANNAH ARENDT 01
Entre o Passado e o Futuro
 
A Tradição e a Época Moderna
 
A tradição de nosso pensamento político teve seu início definido nos ensinamentos de Platão e Aristóteles. Creio que ele chegou a um fim não menos definido com as teorias de Karl Marx. O início deu-se quando, na alegoria da caverna, em A República, Platão descreveu a esfera dos assuntos humanos, tudo aquilo quepertence ao convívio dos homens em um mundo comum, em termos de trevas, confusão e ilusão, que aqueles que aspirassem ao ser verdadeiro deveriam repudiar e abandonar, caso quisessem descobrir o céu límpido das idéias eternas. O fim veio com a declaração de Marx de que a Filosofia e sua verdade estão localizadas, não fora dos assuntos dos homens e de seu mundo comum, mas precisamente neles, podendoser "realizada" unicamente na esfera do convívio, por ele chamada de "sociedade", através da emergência de "homens socializados". A Filosofia Política implica necessariamente a atitude do filósofo para com a Política; sua tradição iniciou-se com o abandono da Política por parte do filósofo, e o subseqüente retorno deste para impor seus padrões aos assuntos humanos. O fim sobreveio quando um filósoforepudiou a Filosofia, para poder realizá-la na política. Nisso consistiu a tentativa de Marx, inicialmente expressa em sua decisão (em si mesma filosófica) de abjurar da Filosofia, e, posteriormente, em sua intenção de "transformar o mundo" e, assim, as mentes filosofantes, a "consciência" dos homens.
 
Uma observação casual feita por Platão em sua última obra - "O início é como um deus que,enquanto mora entre os homens, salva todas as coisas" - é verdadeira para nossa tradição; enquanto seu início foi vivo, ela pôde salvar todas as coisas e harmonizá-la. Como ao mesmo tempo, tornou-se destrutiva à medida que chegou a seu fim - para não dizer nada da esteira de confusão e desamparo que veio depois de finda a tradição e em que vivemos hoje.
Na filosofia de Marx, que não virou Hegel decabeça para baixo tanto assim, mas inverteu a tradicional hierarquia entre pensamento e ação, contemplação e trabalho, e Filosofia e Política, o início feito por Platão e Aristóteles demonstra sua vitalidade, ao conduzir Marx a afirmações flagrantemente contraditórias, principalmente na parte de seus ensinamentos usualmente chamada utópica. As mais importantes são suas predições de que, sob ascondições de uma "humanidade socializada", o "Estado desaparecerá", e de que a produtividade do trabalho tornar-se-á tão grande que o trabalho, de alguma forma, abolirá a si mesmo, garantindo assim uma quantidade quase ilimitada de tempo de lazer a cada membro da sociedade. Essas afirmações, além de serem predições, evidentemente contêm o ideal de Marx da melhor forma de sociedade. Como tal, não sãoutópicas, reproduzindo antes as condições políticas e sociais da mesma cidade-estado ateniense que foi o modelo da experiência para Platão e Aristóteles e, portanto, o fundamento sobre o qual se alicerça nossa tradição. A pólis ateniense funcionou sem uma divisão entre governantes e governados e não foi, assim, um Estado, se usarmos esse termo, como Marx o fez, em acordo com as definiçõestradicionais de formas de governo, isto é, governo de um homem ou monarquia, governo por poucos ou oligarquia, e governo pela maioria ou democracia. Os cidadãos atenienses, além disso, eram cidadãos apenas na medida em que possuíssem tempo de lazer, em que tivessem aquela liberdade face ao trabalho que Marx prediz para o futuro, Não somente em Atenas, mas por toda a Antiguidade e até a Idade Moderna,aqueles que trabalhavam não eram cidadãos e os que eram cidadãos eram, antes de mais nada, os que não trabalhavam ou que possuiam mais que sua força de trabalho. Essa similaridade torna-se ainda mais marcante quando investigamos o conteúdo real do ideal de sociedade de Marx. O tempo de lazer existiria sob a condição de inexistência do Estado, ou sob condições onde, na frase famosa de Lênin que...
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