Gramsci e paulo freire

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 27 (6648 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 26 de abril de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 95-104 NOV. 2007

DA LIBERTAÇÃO À HEGEMONIA:
FREIRE E GRAMSCI NO PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO DO BRASIL
Giovanni Semeraro
RESUMO
As lutas populares que se desencadearam no Brasil desde os anos 1960 até hoje podem ser caracterizadas por dois grandes paradigmas: “libertação” e “hegemonia”. A “libertação” foi a tônica predominante nos anos 1960 e 1970. A“hegemonia” tem sido a palavra de ordem ao longo dos anos 1980 e 1990. A primeira, representada particularmente por Paulo Freire, e a segunda, tendo em Antonio Gramsci sua referência maior, foram se entrelaçando e tornaram-se inseparáveis no desenho de um projeto alternativo de sociedade. Neste artigo, apresenta-se uma análise crítica de seus significados em decorrência dos dez anos da morte de PauloFreire e dos 70 da morte de Gramsci. O texto que segue, além de percorrer os significados, as diferenças e o entrelaçamento de “libertação” e “hegemonia” em seu contexto histórico e social, apresenta uma reinterpretação dos dois paradigmas ante as mudanças políticas e culturais atualmente em curso no Brasil e na América Latina. PALAVRAS-CHAVE: hegemonia; libertação; política.

I. INTRODUÇÃOPara retratar a história política dos movimentos populares brasileiros na segunda metade do século passado, pode-se partir da análise de dois grandes conceitos: “libertação” e ‘hegemonia”. A “libertação” foi a tônica predominante nos anos 1960 e 1970. A “hegemonia” tem sido a palavra de ordem ao longo dos anos 1980 e 1990. A primeira, representada particularmente pelo pensamento de Paulo Freire,expressava os anseios e as lutas dos que queriam se libertar da ditadura (1964-1984) e da história de colonialismo imposto ao Brasil. A segunda, tendo Antonio Gramsci como referência, passou a significar o projeto das forças populares que com o fim da ditadura orientavam seus esforços para a construção de uma democracia social e para a conquista da direção política. As duas, entre os anos 1960 e 1990,foram se entrelaçando e acabaram influenciando fortemente movimentos sociais, organizações políticas e educadores populares brasileiros, imprimindo uma unidade de fundo às suas práticas político-pedagógicas e conferindo uma sintonia peculiar de linguagem, de formulações teóricas e de projetos sociopolíticos.

A partir dos anos 1990, no entanto, intensas mudanças na política, na economia e nacultura vêm provocando uma ressignificação dos paradigmas de “libertação” e “hegemonia”, sinalizando um novo ciclo da história das lutas populares. Nas páginas que se seguem, queremos mostrar como Paulo Freire (1921-1997) e Antonio Gramsci (1891-1937) aparecem juntos não apenas nas datas comemorativas de nascimento e morte, mas continuam associados na inspiração das atuais lutas dos “oprimidos” edos “subalternos” do Brasil e do mundo. II. A LIBERTAÇÃO II.1. A busca da própria identidade Não foi por acaso que o conceito de “libertação” veio a permear progressivamente o ideário e as atividades políticas de diversos segmentos sociais durante a ditadura militar (1964-1984). Esta, de fato, tornara-se a expressão mais palpável do que havia sido em grande parte a história do Brasil. Mais uma vez,de fora e pelo alto, um modelo arbitrário de sociedade era imposto ao Brasil, sufocando com brutalidade a maior mobilização popular de sua história. A repressão que se seguiu ao

Recebido em 15 de agosto de 2007. Aprovado em 25 de agosto de 2007.

Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 29, p. 95-104, nov. 2007

95

DA LIBERTAÇÃO À HEGEMONIA
golpe de 1964 desmantelou e dispersou organizaçõespolíticas, mobilizações estudantis, sindicatos dos trabalhadores, movimentos sociais, círculos de cultura e toda a efervescência política que entre final de 50 e início de 60 vinha “conscientizando” e organizando crescentes segmentos da sociedade brasileira (SEMERARO, 1994, p. 23-33). Portanto, na segunda metade dos anos 1960, quando no Brasil se levanta o apelo à “libertação”, não se tratava...
tracking img