Filmar o real

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LINS, Consuelo; MESQUITA Claudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 07-26.

Em busca do real Por que o documentário tem atraído um interesse crescente de realizadores, críticos e pesquisadores de cinema e conquistado uma parcela pequena mas considerável do público que freqüenta as salas de exibição no Brasil? Formulada dediferentes maneiras, esta questão paira no ar. Ela ecoa um interesse revigorado pela prática documental, que pode ser constatado pelo aumento de filmes produzidos na última década, a criação de festivais especialmente dedicados a essa modalidade de cinema, a ampliação de editais públicos e outras formas de fomento à realização de filmes documentais e a presença crescente - mesmo que aindainsatisfatória - de documentários independentes na televisão brasileira. Também são indicativos desse interesse os cursos que se espalham pelo país inteiro, o aumento de publicações, os debates sobre documentários em encontros e seminários e a discussão em torno de novos meios de exibição e distribuição. Esse estado de coisas não se restringe ao Brasil. Os sinais da força do documentário contemporâneo são atémais consistentes em países da Europa - na França, particularmente-, nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Israel, entre outros. É im-[p. 8]portante notar ainda que o interesse por imagens "reais" tampouco se limita ao campo do documentário: parece corresponder a uma atração cada vez maior pelo "real" em diversas formas de expressão artísticas e midiáticas. Parte significativa das ficçõescinematográficas e mesmo televisivas tem investido em uma estética de teor documental, e são expressivas as adaptações de relatos literários cuja matéria são situações reais. Os telejornais e programas de variedades não se limitam mais às imagens estáveis e bem enquadradas, utilizando em muitas coberturas planos-seqüências tremidos e imagens de baixa qualidade registradas por microcâmeras, câmeras devigilância, amadoras e de telefones celulares, buscando imprimir - ainda que de maneira limitada e "domesticada" - um "efeito de realidade" à assepsia estética que imperava no telejornalismo até o início dos anos 90. Os reality shows suscitam questões que atingem a prática documental, indagando direta ou indiretamente suas fronteiras, possibilidades e limites. É também cada vez mais comum expor imagensdocumentais em galerias e museus na forma de videoinstalações. Em suma, as produções audiovisuais que circulam na televisão, no cinema, na internet, nos espaços de arte contemporânea, em dispositivos móveis como telefones celulares, são atravessadas por imagens "reais" de diferentes tipos (violentas, banais, protagonizadas por 1

celebridades ou anônimos), capturadas por câmeras de formatosdiversos. Desgaste das formas audiovisuais estabelecidas? Tentativas de revitalizar um espectador entediado a quem é preciso oferecer uma dose maior de "realidade" para quebrar a indiferença? Maneiras de satisfazer o desejo "voyeur" do público de ver sempre mais? Eis questões que nos estimulam a refletir sobre a situação do documentário no Brasil e com as quais, querendo ou não, o cinema documental temhoje que se defrontar. O contexto e o quadro ampliado do audiovisual brasileiro são complexos e, embora se façam presentes, não serão ob-[p.9]jeto direto de nossa análise. Este ensaio se atém à produção independente de filmes e vídeos documentais no Brasil a partir de meados dos anos 90, mas faz breves recuos às décadas anteriores para melhor distinguir rupturas e continuidades em relação aodocumentário realizado no país desde os anos 60. Nosso esforço aqui foi o de retomar questões presentes na produção e na crítica ao longo dos últimos anos e abordar outras que nos parecem importantes para debater essa forma de cinema1. Esse procedimento implicou escolhas de filmes e autores, e nos fez deixar de fora um número considerável de obras recentes. Embora haja exceções, privilegiamos...
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