Etica

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A ÉTICA DAS INTERVENÇÕES Prof. Dr. Flávio de Lemos Carsalade Diretor da Escola de Arquitetura da UFMG

Um dos temas de maior dificuldade operacional no campo do patrimônio histórico-cultural diz respeito às intervenções que hoje fazemos no objeto de preservação. A princípio, pode-se questionar que se, afinal de contas, o bem histórico é um objeto que nos chega do passado, por que nele intervirou modificá-lo? Para responder a esta pergunta temos que compreender alguns pontos importantes, sabendo que o bem patrimonial é portador de uma mensagem do passado, mas que só tem sentido se for usufruído no presente. A partir dessa constatação inicial, temos que compreender que a fruição do bem cultural a que nos referimos aqui não é apenas a de uma observação casual como se ele fosse apenas umacuriosidade vinda de outros tempos. Na realidade, esse bem cultural tem uma função social que é a de orientar as populações e o cidadão no tempo e no espaço, colocando a cada um de nós como participes de um grupo comunitário que compartilha de uma história comum e de um lugar próprio no mundo, conferindo-nos a sensação de pertencimento. São os bens históricos que também, nos orientam quandopercorremos as nossas cidades, através dos marcos arquitetônicos, por exemplo, ou que nos referenciam quando fruímos a nossa cultura ou quando compartilhamos nossa memória comum. Faz parte ainda dessa função social a consolidação de uma identidade coletiva, a qual faz reconhecer-nos como elos de uma comunidade e que estimula nossos laços afetivos e de cidadania. Portanto, para que o bem patrimonialpossa exercer sua função mais ampla, ele tem que ser acessível e, para tanto, deve estar recuperado em sua potência. É claro que ao preparamos o bem para sua fruição presente, na recuperação de sua potência, estamos nele intervindo. É este o momento em que surgem as perguntas sobre como fazermos essa intervenção e quais são os seus limites para que o bem não perca seu potencial de ligação com opassado e com a cultura. Estamos nos aproximando, portanto, de uma questão sobretudo ética porque se a preservação do patrimônio está fundada no respeito à pré-existência ela também diz respeito ao futuro, ou seja, versa sobre a nossa capacidade de ser hoje, mas também na de possibilitar as várias existências vindouras. Vamos examinar seus aspectos éticos, portanto, primeiro entendendo as dualidades quelhe são afetas e depois procurando entender como elas refletem no campo da preservação.

1. Relatividade e relação A questão ética pressupõe, antes de tudo, o reconhecimento do “outro”, ou seja, de que vivemos em mundo relacional e social no qual não estamos sozinhos e onde, como diz a sabedoria popular, “a nossa liberdade acaba quando começa a do outro”. Esse reconhecimento da alteridade nosleva a investigar dois conceitos correlatos: a relatividade, ou seja, a consciência de que nossos valores e modo de pensar podem não ser necessariamente os melhores e a relação, que diz respeito aos modos e limites de nossos encontros com o outro, seja ele um sujeito ou um objeto. Vamos examinar a questão da relatividade de duas formas: sob o viés da relatividade do ser na sociedade e o darelatividade do pensamento. Para tanto, vamos buscar o auxílio de Piaget para o primeiro e de Gadamer para o segundo.

Quanto à relatividade do ser na sociedade, é básico associarmos o conceito de alteridade com outro muito importante: o da diversidade. Na realidade somos muitos e diferentes, e, em sendo assim e considerando que não há como dizer que um jeito de ser é melhor do que outro, temos queabrir espaço para que essas diferentes formas de ser se manifestem. Esse reconhecimento da diversidade não só é um gesto de respeito, como também aponta para outro tipo de compreensão, o da diversidade como riqueza. Se a diversidade for entendida como uma riqueza ela aponta para o fato de que diferentes formas de solução de problemas podem ser válidas; se for entendido que a pluralidade deve ser...
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