Entre o popular e o erudito

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Entre o popular e o erudito, “a
civilização no Brasil começou
pelos pés”1
Vera Aragão de Souza Sanchez
Doutoranda em Memória Social (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)
Rio de Janeiro, Brasil
varagao@superig.com.br
O senso comum considera o ballet uma arte importada, sem nada a ver com a nossa
tradição cultural, enquanto o carnaval seria a nossa manifestação popular maissignificativa.
Com base nessa crença, este trabalho pretende mostrar que esses dois gêneros
culturais, assim como algumas danças folclóricas brasileiras, partilham da mesma
origem. Observamos como as composições coreográficas dos ballets podem apresentar
elementos ditos populares, assim como, no carnaval, a sistematização coreográfica é
cada vez mais praticada nas escolas de samba, campo no qualprofissionais oriundos
das artes chamadas de eruditas imprimem princípios acadêmicos à arte popular. Assim,
tomamos como ponto de partida o conceito da “tradição inventada”, proposto
por Eric Hobsbawm e Terence Ranger, para investigar de que forma ocorrem as (re)
apropriações entre essas três expressões artísticas e como se dá a convivência entre a
dança erudita e a dança popular nos dias dehoje.
Palavras-chave: Ballet, carnaval, danças folclóricas , cultura, tradição inventada.
Introdução
É senso comum considerar o ballet uma arte importada, distante de
nossa tradição cultural, enquanto o carnaval é sempre mencionado
como a nossa manifestação popular mais significativa e autêntica. Mas
os elementos que formaram o ballet e o carnaval vêm sendo retomados
e reapropriados aolongo do tempo, imbricando entre si princípios apolíneos
e dionisíacos, conforme sustentado por Nietzsche. Entretanto, ao
longo do tempo, é possível observar como cada vez mais as composições
coreográficas dos ballets apresentam elementos ditos populares, do
mesmo modo que, no carnaval, a sistematização coreográfica é cada vez
mais praticada nas escolas de samba, campo onde profissionaisoriundos
das chamadas artes eruditas imprimem princípios acadêmicos à arte
popular.
Inicialmente, tomemos como base o sentido de tradição dado por
Hobsbawm e Ranger (2002, p.11), ou melhor, o conceito de “tradição
inventada”, essencialmente o processo de formalização, ritualização e
cristalização de hábitos construídos no passado, transmitidos por meio
da repetição. Fixando-se no imaginário dasociedade, as tradições não
necessariamente existiram desde os primeiros tempos; podem ter sido
realmente fabricadas, ou ser resultado de práticas às vezes recentes, mas
estabelecidas em curto espaço de tempo. Desse modo, “tradição inventada”
é entendida como
Resumo
Soc. e Cult., Goiânia, v. 13, n. 2, p. 269-276, jul./dez. 2010.
1 . Enunciado extraído de matéria jornalística do CorreioMercantil de 14 de outubro de
1849, p. 1.
DOI: 10.5216/sec.v13i2.13430
270 Soc. e Cult., Goiânia, v. 13, n. 2, p. 269-276, jul./dez. 2010.
um conjunto de práticas, normalmente reguladas por
regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de
natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos
valores e normas de comportamento
através da repetição,
o que implica, automaticamente, umacontinuidade
em relação
ao passado. Aliás, sempre que
possível, tenta-se estabelecer uma continuidade com
um passado histórico apropriado. (Hobsbawm; Ranger,
2002, p. 9)
Frequentemente, também a identidade nacional
imagina-se original, “na ideia de um povo ou folk
puro, mas nas realidades do desenvolvimento nacional,
é raramente esse povo ( folk) primordial que persiste ou
que exercita opoder”, como determina Hall (2005,
p. 55-56). Nessa linha de pensamento, consideramos a
cultura nacional constituída não apenas de instituições
culturais, mas de um discurso histórico normativo
que, ao produzir sentido e identificações, automaticamente
constrói identidades, enfatizando as origens,
dando continuidade à tradição ou inventando tradições.
Segundo Hobsbawm e Ranger (2002, p. 10),...
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