Domicilio

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 25 (6079 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 12 de novembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
Revista Virtual Textos & Contextos, nº 4, dez. 2005
Textos & Contextos
Revista Virtual Textos & Contextos. Nº 4, ano IV, dez. 2005
2
designação daqueles sem trabalho e constituía-se na exceção. Hoje as melhorias econômicas
já não apontam para a ampliação dos empregos, mas a diminuição da força de trabalho e a
flexibilidade das relações de trabalho são consideradas como partedo progresso. Empregos,
como antes eram compreendidos, não existem mais; “o capital já se tornou a encarnação da
flexibilidade. [...] Sem empregos, há pouco espaço para a vida vivida como projeto, para
planejamento de longo prazo e esperanças de longo alcance”.
Para Castel (1997, p. 15-48), não se trata de uma crise pontual, mas de um processo
de desestabilização da condição salarial. Avulnerabilidade das massas e, de forma mais
aguda, a exclusão social de grupos específicos são resultados da desagregação progressiva
das proteções ligadas ao mundo do trabalho. Consistem em processos de “desfiliação”, ou da
fragilização dos suportes de sociabilidade.
Nesse contexto, observa-se um processo mundial de diminuição do estado social.
Essa tendência encontra terreno ainda maisfértil nos países atingidos por fortes
desigualdades sociais e por grande diferença nas condições de vida da população. Ou ainda,
em países, como o Brasil, em que não houve uma efetiva constituição do estado de bem-estar
social.
A realidade brasileira, embora com suas características próprias, está integrada à
tendência de fragmentação mundial. O modelo econômico implantado no País produziusubjugados, pessoal e socialmente, com difícil perspectiva de transposição social. De outra
parte, as políticas sociais adotadas pelos diferentes governos tiveram como opção a
implementação de ações de caráter nitidamente focalista, refletindo a tendência de enfrentar
os problemas sociais como fatos isolados. A conseqüência é que tais políticas não trouxeram
resultados efetivos nacondição de vida da população.
Conforme Bauman (1997, p. 56), em uma sociedade centrada no consumo, como a
que estamos inseridos, existem “os jogadores”, “os jogadores aspirantes” e “os jogadores
incapacitados”, que não têm acesso à moeda legal. Estes devem lançar mão dos recursos para
eles disponíveis, sejam legalmente reconhecidos ou não, ou optar por abandonar em
definitivo o jogo.
É aopção que resta àqueles denominados por Castel (1997, p. 28-29) como
“sobrantes”, pessoas normais, mas inválidas pela conjuntura, como decorrência das novas
exigências da competitividade, da concorrência e da redução de oportunidades e de emprego,
fatores que constituem a situação atual, na qual não há mais lugar para todos na sociedade. O
refugo do jogo, antes de explicação eresponsabilidade coletiva, corporificada pelo estado de
bem-estar, agora se define como uma situação individual.Revista Virtual Textos & Contextos, nº 4, dez. 2005
Textos & Contextos
Revista Virtual Textos & Contextos. Nº 4, ano IV, dez. 2005
3
Para o autor, esses “sobrantes” são indivíduos “que foram inválidos pela conjuntura
econômica e social dos últimos vinte anos e que se encontramcompletamente atomizados,
rejeitados de circuitos que uma utilidade social poderia atribuir-lhes” (Castel, 1997, p. 181).
Para sua sobrevivência, como todos na sociedade de consumo, dependem do mercado. A
diferença está em que este mesmo mercado não mais precisa de sua força de trabalho, único
valor de que dispõem para o processo de troca. Como não participam do processo de
circulação demercadorias, simplesmente sobram.
Nesse contexto, insere-se a população em situação de rua. Grupo populacional
heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades, mas que têm em comum a
condição de pobreza absoluta e a falta de pertencimento à sociedade formal. São homens,
mulheres, jovens, famílias inteiras, grupos, que têm em sua trajetória a referência de ter
realizado...
tracking img