Do inobjeto

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Vilem Flusser

DO INOBJETO

Esse texto, cujo original datilografado foi encontrado nos Arquivos Flusser (Flusser Archiv), na Escola Superior de Arte e Mídia de Colônia (Kunsthochschule für Medien Köln), faz parte de uma série de reflexões que o autor desenvolveu acerca dessa nova categoria de objetos informacionais, por ele chamados de “inobjetos”. Após a sua morte em 1991, Flusser tornou-sereconhecido pela comunidade internacional como um dos mais importantes pensadores do Ocidente, ao lado de Jean-François Lyotard, Jean Baudrillard e Paul Virilio, por suas reflexões acerca o impacto das novas tecnologias na cultura como um todo. O manuscrito original não se encontra datado, mas podemos supor que ele pertence à série dos anos oitenta, período de intensa atividade produtiva dofilósofo. (Mario Ramiro)

A nossa circunstância era composta, ainda recentemente, de objetos. De casas e móveis, de máquinas e veículos, de roupas e sapatos, de livros e quadros, de latas e garrafas. Havia, naquele tempo, gente em nosso entorno, mas as ciências “humanas” tinham objetivado tal gente. Ficou tão calculável e manipulável como qualquer outro objeto. A circunstância toda era objetiva.Querer orientar-se em tal circunstância era distinguir entre objetos. Por exemplo: entre os objetos da natureza e os da cultura. A roseira contra a parede da minha casa será objeto natural, por crescer e por ser assunto da botânica, essa ciência da natureza? Ou será objeto artificial, por ter sido plantada por jardineiro em obediência a determinado modelo estético? E minha casa será objeto artificial,por ser a arquitetura uma “arte”? Ou será ela objeto natural, por ser “natural” que homens façam casas, como pássaros fazem ninhos? A distinção entre natureza e cultura é duvidosa. Igualmente duvidoso é não importa que outro critério para distinguirmos objetos. Por exemplo: distinguir entre objetos intransportáveis e transportáveis, “imóveis” e “móveis”. País parece ser objeto imóvel, mas aPolônia foi transportada rumo ao Oeste. Camas parecem ser móveis, mas a minha cama é mais estável que a Polônia. Todo catálogo de objetos terá inexatidões e lacunas. Não é fácil o conhecimento objetivo. No entanto, sob retrospectiva, viver em circunstância objetiva era viver vida confortável. Havia, por certo, dificuldades “epistemológicas”, mas sabia-se, mais ou menos, como levar a vida. Viver écaminhar rumo à morte. Em circunstância objetiva tal caminhar esbarra contra objetos. Os objetos que barram caminho eram chamados “problemas”. Viver era limpar o caminho, resolver problemas. De duas maneiras. Manipulando o problema para que fique mais dócil (a isso se chamava “produção de objetos”), ou saltando por cima do problema (a isso se chamava “progresso”). Havia problemas que não permitiam nemserem manipulados, nem saltados. A isso se chamava “as últimas coisas”.
Jenny Holzer, “Installation”, 1988/89, Piccadilly Circus, Londres.
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Ao encontrar tais problemas insolúveis, tais últimas coisas, a gente morria. Era isto viver: resolver problemas (emancipar-se das condições), até esbarrar contra esta última coisa que é a morte. Isto é confortável: sabe-se a que se ater, à“dureza das coisas”. Infelizmente tudo isso não vale mais atualmente. Inobjetos estão penetrando a circunstância e estão empurrando os objetos rumo ao horizonte. “Informações” é o nome de tais inobjetos. O que acabo de dizer parece besteira. Sempre havia informações no nosso mundo. E, conforme o termo “in-formação”, trata-se de “formação em” objetos. Todo objeto contém informação, seja livro ou quadro,seja lata ou garrafa. Para trazer a informação à tona, basta decifrar o objeto. Nada de novo, portanto. Como acontece sempre, tal objeção do senso comum, aparentemente razoável, é falsa. As informações atuais que penetram a nossa circunstância para desalojar os objetos são de tipo novo. As imagens eletrônicas nas telas de TV, os dados contidos em computadores, os microfilmes e hologramas e...
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