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CHICO BUARQUE E PAULO PONTES Distribuído por www.oficinadeteatro.com O Maior site de teatro do Brasil Para uso Comercial deste Texto, deve-se ter Autorização da SBAT ou do Autor. APRESENTAÇÃO A esta altura do nosso trabalho, já com os ensaios bastante adiantados, seria impossível levantar o mundo de intenções que Gota D’Água contém — nossas, do Ratto, do elenco, de Dory e Luciano. O que não nosimpede de ir pro inferno — ao contrário, ajuda. Podemos, entretanto, esquematicamente, esboçar as preocupações fundamentais que a nossa peça procura refletir. A primeira e mais importante de todas se refere a uma face da sociedade brasileira que ganhou relevo nos últimos anos: a experiência capitalista que se vem implantando aqui — radical, violentamente predatória, impiedosamente seletiva —adquiriu um trágico dinamismo. O santo que produziu o milagre é conhecido por todas as pessoas de boa-fé e bom nível de informação: a brutal concentração da riqueza elevou, ao paroxismo, a capacidade de consumo de bens duráveis de unia parte da população, enquanto a maioria ficou no ora-veja. Forçar a acumulação de capital através da drenagem de renda das classes subalternas não é novidade nenhuma.Novidade é o grau, nunca ousado antes, de transferência de renda, de baixo para cima. Alguns economistas identificados com a fase anterior afirmam que a saída era previsível, mas, de tão radical, impensável, dado o grau de pauperismo em que já vivia a maioria da população. No futuro, quando
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Gota D’agua

se puder medir o nível de desgaste a que foram submetidas asclasses subalternas, nós vamos descobrir que a revolução industrial inglesa foi um movimento filantrópico, comparado com o que se fez para acumular o capital do milagre. O certo é que, à falta de alternativa melhor, a experiência foi posta em prática e se “consolidou”. É indiscutível que o autoritarismo foi condição necessária à implantação de um modelo de organização medidas social tão radicalmenteanti-popular. tributária. A autoridade etc.) que rigidamente centralizada permitiu que se pusesse em prática o elenco de (políticas salarial, monetária, modernizaram, à feição capitalista, uma parte da sociedade brasileira, enquanto se intensificava o processo de empobrecimento da parte maior. Mas isso não explica tudo. Achar que o autoritarismo foi o único instrumento da imobilização imposta àsclasses subalternas, no Brasil, nos últimos anos, eqüivale a dizer que as forças políticas no poder coagularam as relações entre as classes sociais, que todas as forças sociais ficaram paradas, contra a vontade, assistindo as classes dominantes fazerem seu carnaval, sozinhas. E isso não é verdade. No movimento que redundou num avanço tão grande dos interesses das classes dominantes sobre os dasclasses subalternas, as camadas médias têm desempenhado um papel fundamental. Elas, ao lado do autoritarismo, e de forma mais profunda, têm legitimado o milagre. Seria ingênuo, a partir daí, fazer qualquer julgamento moral da classe média brasileira. Se a raiz desse problema fosse moral, viver não dava trabalho nenhum. A verdade é que o capitalismo caboclo atribuiu uma função, no tecido produtivo, aossetores mais qualificados das camadas médias. Não apenas como compradores, beneficiários do desvario consumista, mas, sobretudo, como agentes da atividade econômica. Em outras palavras, o capitalismo
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caboclo começou a ser capaz de cooptar os melhores quadros que a sociedade vai formando. E isso, de certa forma, é inédito no Brasil. Este sempre foi um país dependente.A nossa história tem sido, também, a história dos conflitos entre as diversas matrizes e os interesses legítimos, nacionais, que se foram criando aqui. Ao longo dessa história correram, paralelas e quase sempre isoladas uma da outra, duas culturas: uma, elitista, colonizadora, transposta da matriz para cá; a outra, popular, abafada, nascida da existência social concreta das classes subalternas....
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