Contra o amor

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  • Publicado : 14 de novembro de 2011
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Contra o amor
A pesquisadora americana diz que a obrigação de se apaixonar tornou as pessoas mais infelizes.

A americana Laura Kipnis, professora de comunicações na Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, contesta alguns dos conceitos mais sagrados da sociedade, como o amor, o casamento e a monogamia. Em Against Love – A Polemic (Contra o Amor – Uma Polêmica, que serápublicado neste ano no Brasil), livro de grande repercussão lançado em 2003 nos Estados Unidos, ela diz que, no mundo moderno, o amor passou a ser visto como a solução para as dúvidas existenciais do ser humano – e que isso é uma tremenda encrenca. A expectativa quanto à felicidade que o amor deve proporcionar complicou o casamento e outros tipos de relação estável, pois exige do casal um esforçoinédito para que as coisas dêem certo. Para a professora, essa nova realidade é uma enorme fonte de stress e depressão. Autora de outros dois livros que analisam as relações entre sexualidade e política, ela prepara agora um volume sobre escândalos sexuais. Laura – que tem 47 anos e está solteira, mas já passou por longos relacionamentos – falou a VEJA de Chicago, onde mora.

Veja – O amor trazfelicidade?
Laura – Não exatamente. A idéia de que o amor leva à felicidade é uma invenção moderna. A gente aprende a acreditar que o amor deve durar para sempre e que o casamento é o melhor lugar para exercê-lo. No passado não havia tanto otimismo quanto à longevidade da paixão. Romeu e Julieta não é uma história feliz, é uma tragédia. O mito do amor romântico que leva ao casamento e à felicidade éuma invenção do fim do século XVIII. Nas últimas décadas, a expectativa quanto ao casamento como o caminho para a realização pessoal cresceu muito. A decepção e a insatisfação cresceram junto.
Veja – Ou seja, enquanto antes as pessoas sofriam porque os casamentos eram arranjados, hoje sofrem porque acham que devem encontrar a pessoa ideal?
Laura – Exato. Imagine alguém dizer que é contra o amor.É considerado um herege. As propagandas, as novelas, os filmes, os conselhos dos parentes, tudo contribui para promover os benefícios do amor. Deixar de amar significa não alcançar o que é mais essencialmente humano. O casamento é envolto pelo mesmo tipo de cobrança. E, quando cai por terra a expectativa do romance e da atração sexual eternos, surge a pergunta: "O que há de errado comigo?". Odiagnóstico dos terapeutas é "inabilidade para se estabelecer" ou "imaturidade". Não é à toa que as pessoas consomem cada vez mais antidepressivos. A questão que eu coloco é: talvez o problema não seja do indivíduo, mas da incapacidade do casamento em cumprir as promessas de felicidade.
Veja – E por que o casamento não satisfaz?
Laura – O casamento transforma pessoas agradáveis em tiranos domésticos.Criticar os hábitos do parceiro torna-se a conversa-padrão do casal e a diversão favorita passa a ser modificar o comportamento do cônjuge. Existe algum momento na vida do casal que não seja permeado por regras, desde o modo como você coloca os pratos na máquina de lavar louça até o que pode dizer em uma festa? Nos Estados Unidos, apenas 38% das pessoas consideram-se felizes em seu casamento.Veja – Se casar é tão ruim, por que há tanta gente que tenta duas, três vezes?
Laura – Essas pessoas provavelmente acreditam que o problema não esteja na instituição em si ou nas suas expectativas impossíveis. Para esses otimistas, o problema é que por algum motivo eles falharam em encontrar a pessoa certa ou cometeram algum erro. Ficam imaginando: "Se eu tivesse colocado as meias no cesto de roupasuja em vez de largá-las no corredor, tudo teria dado certo".
Veja – A instituição casamento vai desaparecer?
Laura – Nos Estados Unidos, o índice de divórcio é de 50%, o que dá uma idéia da fragilidade da instituição. Além disso, a proporção de casas sustentadas por solteiros está aumentando. Mas eu não acho que a instituição casamento vá acabar. Vai, isso sim, mudar muito. A primeira...
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