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  • Publicado : 19 de fevereiro de 2013
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Ele gemia. Ela, em desvelos, sussurrava consolos que só ele ouvia. No rosto do homem, dor. Na mulher, pena e ternura eram quase orgasmo.
Ungüentos, pozinhos, meizinhas. As mãos mal tocavam asferidas que teimavam em não cicatrizar. A cada contração correspondia um gesto enternecido.
Jamais por ali se vira uma tal delicadeza. Tão dedicada mulher! Causava espanto aos poucos que, em nomede velhos tempos, ainda o visitavam, disfarçando o asco, deitando o olhar no corpo destroçado. Quanta coragem! É uma santa! É uma mártir... que sorte a dele... fosse outra... Mas que sina, tão jovem,tão bonita ainda. Isso sim, é que é amor. Pensei que não existia. Que coisa! Como é que pode! Ela não sai de junto, não descansa, não deixa ninguém cuidar dele.
Os lamentos, o marido só com elarepartia. Como pude ficar assim? Nunca pensei. tou lhe dando tanto trabalho. Sei que você também sente nojo, não sente? Eu sinto! Por que não você? Logo eu, meu Deus, logo eu. Lembra o dia em que quebreios pontos daquela cirurgia, só pra não lhe pedir aquele balde com água? Nunca lhe pedi nada, não foi? Nunca lhe dei trabalho. Diga, diga. Alguma vez eu lhe pedi chinelo, toalha, jornal, água,cinzeiro, cueca, comida... diga... nunca precisei de você, não foi?
Ele não viu. O lábio cortado quando ela o prendeu com os dentes. Só ouviu a suavidade da sua voz:
- Descanse. Não fale tanto. Nãoprecisa. Você nunca precisou de mim. Nem mesmo quando sua mãe morreu, você quis meu ombro. Ficava trancado no quarto por horas e saía de lá, usando óculos escuros. Nunca soube o que você fazia paraabafar o barulho quando chorava. Você chorava, não é? Eu ficava escorada lá fora, ouvido colado à porta, louca de vontade de abraçá-lo, de fazer carinho, de botar no colo, mas você era sempre tãocontido, tão digno, tão fechado em suas emoções. Não, meu querido, você nunca precisou de mim. Nunca me deu trabalho, nunca me incomodou.
- Você sabe que eu nunca entendi direito aquele acidente?...
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