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NOVOS CONTOS DA MONTANHA MIGUEL TORGA Digitalização e Arranjos: Ângelo Miguel Abrantes Angelo.abrantes@clix.pt ampa8@hotmail.com (domingo, 26 de Janeiro de 2003) MIGUEL TORGA NOVOS CONTOS DA MONTANHA 12.a EDIÇÃO COIMBRA PREFÁCIO A TERCEIRA EDIÇÃO Leitor amigo : Aqui te apresento, o mais discretamente possível, a terceira edição deste livro. Almas penadas dum Portugal nuclear, todas as personagens dele ardem nas  suas páginas como nas labaredas simbólicas de qualquer nicho dos caminhos.  Por isso, de mãos erguidas, imploram de quem passa o piedoso silêncio que  preceda um acto de respeito e de compreensão. Respeito pela sua medida, que é humana, e compreensão pelos trâmites das suas acções, que  foram terrenas. Dou eu, pois, o exemplo, e digo­te em duas palavras que se fez mais uma reprodução do painel, acrescentado apenas de algumas figuras que lhe  faltavam, e retocado aqui e além, onde a tinta estava a cair. Painel tosco e montanhês, como sabes. Mas nosso, quer queiramos, quer não,  e dos outros, também, quando a curiosidade dos outros der a volta ao mundo. Então, embora, sorriam da ingénua pintura do artista, hão­de certamente render­se à penitente grandeza destes irmãos serranos, que 'se purificam com  sofrimento universal num purgatório de chamas transmontanas. Miguel TORGA Coimbra, Setembro de 1952. 12 PREFÁCIO A QUINTA EDIÇÃO Acrescentado e com bastantes remendos na vestimenta já várias vezes 

remendada, sai novamente impresso este livro, mais feliz do que o seu irmão  gémeo Contos da Montanha, desterrado no Brasil. De origem modesta, contra tudo o que era de esperar, a sorte tem­no bafejado. Vai sendo lido e  reproduzido, sinais certos de que vive e caminha. Razões? Talvez a evidência de se não tratar de uma mera celebração literária para iniciados, mas dum sincero esforço de comunhão universal. Desde rapaz que defendo uma  arte o mais pura possível nos meios e o mais larga possível nos fins. Uma  super­realidade da realidade, onde todos os homens se encontrem, quer sejam intelectuais quer não. Daí que no meu espírito tenha igual peso o juízo dos  leigos e o dos ungidos, e me console tanto o aplauso dos simples como o dos complicados. Só quando uns e outros se juntam na mesma curiosidade  pelo que escrevo sinto uma relativa paz de consciência e alguma certeza. É  menos cruciante o medo de me perder nas malhas dum ritual esotérico. No caso presente, parece que, de facto, tal não sucedeu. A missa é campal, aberta  a todos os horizontes. E quem a reza é um pobre cristão que soletra  humildemente, em nome dos irmãos penitentes, o seu tosco latim. O que até se vê na própria maceração destes sucessivos intróitos... S. Martinho de Anta, Natal de 1966 14 O ALMA­GRANDE Riba Dal é terra de judeus. Baldadamente, pelo ano fora, o Padre João benze, perdoa, baptiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas. ­ Quem é Deus ? ­ É um Ser todo poderoso, criador do Céu e da Terra. Na destreza com que se desenvencilham do interrogatório, não há quem possa  desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o  Pentateuco. Mas está. E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe  importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a  confissão daquele segredo ­ abafador. Desses servos de Moisés, encarregados de abreviar as penas deste mundo e  salvar a honra do convento, o maior de que há memória é o Alma­Grande. Alto, mal encarado, de nariz adunco, vivia no Destelhado, uma rua onde mora  ainda o vento galego, a assobiar sem descanso o ano inteiro. Quem vinha chamar aquele pai da morte já sabia que tinha de subir pela encosta acima a  lutar como um barco num mar encapelado.

­ Raios partam o vento! Mas quê! Do mesmo modo que o Alma­Grande era  certo na casa da esquina, sempre ao borralho, era certo o bafo da Sanábria a  varrer a ladeira. Diante da casa, bastava gritar­lhe o nome. ­ Tio Alma­Grande! ó Tio Alma­...
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