Ciencias naturais e ciencias sociais

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  • Publicado : 12 de abril de 2012
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Pretende-se, nesse breve artigo, levantar algumas questões referentes à relação entre Ciências Naturais e Ciências Humanas, tendo como fio condutor o pensamento de Boaventura de Souza Santos. Trata-se de um tema muito importante, ao nosso ver, para todos os que atuam em uma universidade.

E você, o que pensa sobre o assunto? Será que as ciências dos fatos produzidos pelos homens têm o mesmoestatuto de cientificidade que o das ciências dos fatos da natureza? Ou, ao contrário, teriam elas lógicas complemente diferentes? Ou, ainda, não poderia haver um meio termo entre ambas? O que você tem a dizer sobre essa questão? Como devemos conceber a relação entre esses dois tipos de ciência?

Se você adotar a tese de que há uma única maneira de fazer ciência, neste caso, a nossa questão estariaresolvida. Pois, como as ciências naturais, há muitos séculos, vêm mostrando sua fecundidade e sucesso, então, se as pesquisas dos fatos humanos quiserem ter um estatuto científico - dentro dessa ótica -, isso só será possível se elas se pautarem nos critérios de objetividade, neutralidade, enfim, no método das ciências naturais. Essa é, em essência, a posição de todos os autores ligados aopensamento positivista.

Santos, contudo, vai sugerir-nos novos caminhos. Ele parte, em seu estudo (Veja 1993, p. 9-119) da tese de Bachelard de que tanto as ciências naturais como as humanas - inclusive a filosofia, enquanto discurso articulado e rigoroso - comportam duas rupturas epistemológicas.



Chico Ferreira
Núcleo de Fotografia UCB Captura

A primeira: todo processo científico só podeacontecer quando o pesquisador sai da linguagem do senso comum e busca uma linguagem técnica, própria de um saber rigoroso que busca encontrar a verdade; pois a ciência, nesse momento, se opõe à opinião. Dentro da linguagem do senso comum não é possível acontecer saber rigoroso e concatenado.

Contudo, quando a ciência tiver acabado sua pesquisa e discurso, se torna necessária a segundaruptura: é preciso voltar à linguagem do senso comum, para que os resultados de suas pesquisas sejam acessíveis a todos os membros de sua comunidade. A ciência só pode ser constituída dentro de uma linguagem rigorosa; entretanto, os resultados da ciência devem ser traduzidos dentro da linguagem cotidiana, da linguagem própria dos que não pertencem à comunidade científica. Os conhecimentos conquistadosdevem ser divulgados ao público numa linguagem a ele acessível. Esse trabalho de construção e desconstrução (próprio da hermenêutica) dos conhecimentos alcançados, graças ao rigor do trabalho científico, é uma etapa essencial, pois toda ciência é uma atividade social e, como tal, trará impacto e conseqüências relativas à qualidade de vida dos membros da sociedade em que ela se exerce.

Os cidadãoscomuns têm o direito e o dever de conhecer o que fazem e pensam seus cientistas e filósofos, porque também eles são co-responsáveis por tudo o que se faz e acontece no seio da sociedade em que vivem. Os resultados da pesquisa científica sempre trarão impactos, ao mesmo tempo, positivos e negativos sobre a vida dos cidadãos. A verdade da ciência não é algo atemporal e acima de qualquer suspeita:ela pode ser usada de modo abusivo, ideológico e autoritário; por isso, todos os cidadãos têm direito a discutir, ao menos, as conseqüências positivas e negativas dos resultados da pesquisa.. A verdade da ciência se dá sempre na e para a sociedade: ela é prática e social.

Santos acentua o aspecto pragmático da verdade que, segundo William James, consiste em saber "que diferença faz, para você epara mim, em instantes precisos de nossa vida, se esta fórmula-mundo ou aquela fórmula-mundo é verdadeira", (Santos, 1993, 44). A maneira como a ciência ou a filosofia concebe o mundo traz conseqüências que mudam fundamentalmente nosso modo de existir no mundo. Por isso, todos nós temos o dever e o direito de discutir sobre o que implica tudo isso. Até hoje a filosofia, a ciência e a tecnologia...
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