Cidadania e classe social

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MARSHALL, T. H. Cidadania e classe social. In: ________ . Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, s.d. p. 57- 114.

T. H. Marshall.

Professor Emérito de Sociologia da Universidade de Londres

CIDADANIA, CLASSE SOCIAL E STATUS

Introdução do Prof. PHILLIP C. SCHMITTER

Tradução de METON PORTO GADELHA

ZAHAR EDITORES
Rio de Janeiro

Página 57

Capítulo IIICIDADANIA E CLASSE SOCIAL

O convite para pronunciar estas conferências [Nota: l] me foi agradável tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. Mas, enquanto minha resposta pessoal consistiu num reconhecimento sincero e modesto de uma honra que não tinha o direito de esperar, minha reação profissional não foi absolutamente modesta. Parecia-me que a Sociologia tinha todo o direitode reclamar sua participação nessa comemoração anual de Alfred Marshall e considerei um fato auspicioso o convite feito por uma Universidade que, embora não inclua a Sociologia em seus cursos, deveria estar preparada para recebê-la como uma visitante. Pode ser, e isto é um pensamento inquietante, que a Sociologia esteja sendo julgada pela minha pessoa. Se assim o for, estou certo de poderdepender de um julgamento escrupuloso e justo da parte desta audiência e de que qualquer mérito porventura encontrado nestas conferências será atribuído ao valor acadêmico da matéria enquanto qualquer coisa que lhes pareça lugar - comum, ou fora de propósito será considerado um produto de minhas características peculiares a não serem achadas em nenhum de meus colegas.
Não defenderei a relevância damatéria para a ocasião alegando que Marshall foi um sociólogo. Pois, uma vez que ele abandonara seus primeiros amores pela Metafísica, Ética e Psicologia, dedicou sua vida ao desenvolvimento da Economia como ciência independente e ao aperfeiçoamento de seus métodos próprios de investigação e análise. Marshall deliberadamente escolheu um caminho acentuadamente diferente daquele seguido por Adam Smithe John Stuart Mill, e o espírito que regeu esta escolha é indicado pela aula inaugural que ele pronunciou

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em Cambridge em 1885. Falando sobre a crença de Comte numa Ciência Social unificada, ele disse: "Não há dúvida de que, se tal ciência existisse, a Economia encontraria, de bom grado, abrigo sob suas asas. Mas ela não existe; nem mostra indícios de sua aparição. Não fazsentido esperar por ela; devemos fazer o que podemos com nossos recursos atuais". [Nota: 2] Ele, portanto, defendeu a autonomia e a superioridade do método econômico, superioridade esta devida principalmente ao emprego da moeda como instrumento de medida a qual "se constitui de tal maneira na melhor medida de motivos que nenhuma outra poderia competir com ela" [Nota: 3]
Marshall foi, como sabemos,um idealista; tão idealista que Keynes certa vez afirmou que Marshall "estava muito ansioso para fazer o bem". [Nota: 4] Atribuir-lhe, por esta razão, o epíteto de sociólogo seria a última coisa a fazer. É verdade que alguns sociólogos têm sofrido de semelhante benevolência, muitas vezes em detrimento de seu desempenho intelectual, mas não me agrada distinguir o economista do sociólogo afirmandoque um deveria ser guiado pela razão enquanto o outro ser levado pelo coração. Pois todo sociólogo honesto, como todo economista sincero, sabe que a escolha de fins ou ideais jaz fora do campo da Ciência Social e dentro do campo da Filosofia Social. Mas o idealismo de Marshall fez com que este apaixonadanmente colocasse a Ciência da Economia a serviço de políticas ao empregá-la - como uma ciênciapode ser empregada de maneira legítima - para desvendar a natureza e o conteúdo dos problemas com os quais a política tem de lidar e para avaliar a eficácia relativa de alternativas para a realização de determinados objetivos. E Marshall tinha consciência de que, mesmo no caso daqueles que seriam naturalmente considerados problemas econômicos, a Ciência da Economia, por si só, não era capaz de...
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