Carandiru

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  • Publicado : 4 de outubro de 2011
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INTRODUÇÃO

Em 1989, o médico Drauzio Varella iniciou na Casa de Detenção de São Paulo um trabalho voluntário de prevenção à AIDS. Esse trabalho, que prossegue até hoje e teve o apoio da Unip (Universidade Paulista), incluiu pesquisas epidemiológicas sobre a prevalência do HIV, palestras educativas para a população carcerária, gravação de vídeos, edição de um jornalzinho de circulação restritaà penitenciária e atendimento de doentes.

Um pouco desses dez anos de convivência semanal o autor registrou em seu livro Estação Carandiru. Ele conduz o relato em função da proximidade direta que estabeleceu com as pessoas a quem se refere, preso ou funcionários.

A Casa de Detenção de São Paulo, o maior presídio do país, abriga mais de sete mil presos —“a malandragem”, como eles mesmos sedenominam. Drauzio Varella fala desse conjunto por intermédio de Santão, Alfinete, Charuto, seu Jeremias, Loreta, Ezequiel e muitos outros. Nos fragmentos das histórias individuais surgem os problemas crônicos do presídio e as formas de acomodação à precariedade e às privações.
Drauzzio Varella chega ao pátio do presídio, por lá circulam advogados, mulheres com sacolas e funcionários. No caminhoele passa por um corredor que dá acesso a sala do diretor-geral, depois passa para a Divinéia.
A Divinéia é cheia de movimento durante o dia. Tudo o que entra ou sai da cadeia passa obrigatoriamente por ela. Caminhões descarregam comida, tijolos, madeira e material para o trabalho nos Patronatos, além de retirar toneladas de lixo. Humanamente impossível revistar tudo o que entra. Paralisaria opresídio. É na Divinéia o ponto final dos camburões que trazem os presos ou que os levam para fora: depoimentos no Fórum, reconhecimento nos distritos ou transferência para outros presídios - procedimento chamado de "bonde", na linguagem da cadeia.
A Detenção tem cerca de sete mil homens, o dobro ou o triplo do número previsto nos anos 50, quando foram construídos os primeiros pavilhões. Nas pioresfases, o presídio chegou a conter nove mil pessoas.
Foi na Divinéia o primeiro contanto de Drauzzio com os presos. Para ele, foi fácil reconhece-los, que vestiam o uniforme obrigatório de cor bege. Eles não podiam andar descalços, os cabelos tinham que estar cortados.
A Detenção é um presídio velho e mal conservado. Os pavilhões são prédios cinzentos de cinco andares, quadrados, com um pátiointerno, central, e a área externa com a quadra e o campinho de futebol.
As celas ficam de ambos os lados de um corredor, chamado de "galeria" - que faz a volta completa no andar, de modo que as de dentro, lado um têm janelas que dão para o pátio interno e as outras para a face externa do prédio, lado E. Paredes altas separam os pavilhões, e um caminho asfaltado, amplo, conhecido como "Radial", poranalogia a movimentada avenida da zona leste da cidade, faz a ligação entre eles.

O portão de entrada dos pavilhões é guardado por um funcionário sem armas nem uniforme. Para diferenciá-los dos presos, os carcereiros vestem calça escura ou jeans. É proibido entrar no presídio com armas, exceção feita ao temido pelotão de Choque da PM, nos dias de revista geral.
As celas são abertas pela manhãe trancadas no final da tarde. Durante o dia, os presos movimentam-se com liberdade pelo pátio e pelos corredores. Cerca de mil detentos possuem cartões de trânsito para circular entre os pavilhões. São faxineiros, carregadores, carteiros, estafetas, burocratas, gente que conta com a confiança da administração.
Por segurança, a entrada do pavilhão é gradeada em forma de uma gaiola constituídapela porta externa e pelas internas, que bloqueiam o acesso à escada e à galeria do térreo. No folclore do Casarão há muitas menções às "ruas Dez" palcos tradicionais de disputas violentas. A Rua Dez nada mais é do que o trecho da galeria oposto à gaiola de entrada do andar, longe da visão dos guardas, que, para atingi-la, são obrigados a percorrer as galerias laterais, onde ficam expostos à...
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