bom crioulo

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Fonte CAMINHA, Alfredo. Bom-crioulo. So Paulo tica, 1995. Texto proveniente de A Literutra Brasileira O seu amigo na Internet. Permitido o uso apenas para fins educacionais. Qualquer dvida entre em contato conosco pelo email HYPERLINK mailtodariognjr@bol.com.br dariognjr@bol.com.br. HYPERLINK http//www.aliteratura.kit.net/ http//www.aliteratura.kit.net Texto-base digitalizado por SrgioSimonato Campinas/SP Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam mantidas. BOM-CRIOULO Adolfo Caminha 1 A velha e gloriosa corveta que pena j nem sequer lembrava o mesmo navio doutrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas... Estava outra,muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de patescaria. Vista ao longe, na infinita extenso azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantstica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaa flutuante, desde a brancura lmpida e triunfal das velas at a primitiva pintura do bojo. Noentanto ela a vinha esquife agourento singrando guas da ptria, quase lgubre na sua marcha vagarosa ela a vinha, no j como uma enorme gara branca flechando a lquida plancie, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalptico de asas abertas sobre o mar... Havia pouco entrara na regio das calmarias o pano comeava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com umapancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento a viagem tornava-se montona a larga superfcie do oceano estendia-se muito polida e imvel sob a irradiao meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, to de leve, to de leve que mal se lhe percebia o movimento. Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indcio algum de criatura humana fora daquele estreito convs gua, somente gua emderredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilvio medonho..., e no alto, l em cima, o silncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia. Triste e nostlgica paisagem, onde as cores desmaiavam fora de luz e a voz humana perdia-se numa desolao imensa Marinheiros conversavam proa, sentados uns no castelo, outros em p, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqilamente,esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peas, varais de escotilha, tudo quanto ao e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista. De vez em quando h um grande rebulio a mastreao geme, como se fora desprender-se toda, o pano bate com fora de encontro s vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da gua no bojo da velha nau. Agenta diz uma voz. Evolta o sossego e continua a pasmaceira, o tdio, a calmaria sem fim... J os primeiros sintomas de indolncia refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiamentos de sesta, e ainda ficavam to longe as montanhas da costa e os carinhos da famlia... Escasseavam os gneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em lata aproximava-se ameaadoramente, causando apreensesmarinhagem. Tinham dado onze horas na sineta de proa. O tenente que estava de quarto no passadio conferiu o relgio dalgibeira, um belo cronmetro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vista dolhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco, metlica Corneta Era um oficial distinto, moo, moreno, os olhos vivos e inteligentes,grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar de navegao prtica. Ningum a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava dolhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe ponta do lpis de um modo admirvel. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo sei entranhado amor s matemticas e vida naval. Como...
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