Bom Crioulo

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Bom-crioulo
Adolfo Caminha

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Bom-crioulo

1
A velha e gloriosa corveta - que pena! - já nem sequer lembrava o
mesmo navio d'outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo,
como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando
serena o corcovo das ondas!...
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com assuas velas
encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que
entusiasmava a gente nos bons tempos de "patescaria". Vista ao
longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica
de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante,
desde a brancura límpida e triunfal das velas até a primitiva pintura do
bojo.
No entanto ela aí vinha - esquife agourento- singrando águas da
pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já
como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas
lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas
abertas sobre o mar...
Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a
bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois,
com uma pancada surda eigual, no mesmo abandono sonolento; a
viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia-se
muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta
deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o
movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura
humana fora daquele estreito convés: água, somente água em
derredor, comose o mundo houvesse desaparecido num dilúvio
medonho..., e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferas
obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz
e a voz humana perdia-se numa desolação imensa!
Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em
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www.terra.com.br/virtualbookspé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente,
esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças,
varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz
fortemente, encandeando a vista.
De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme, como
se fora desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às
vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, eouve-se o
cachoeirar da água no bojo da velha nau.
- Agüenta! diz uma voz.
E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem
fim...
Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da
gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e
ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da
família!...
Escasseavam os gêneros, e o regimen decarne-seca e das conservas
em lata aproximava-se ameaçadoramente, causando apreensões à
marinhagem.
Tinham dado onze horas na sineta de proa.
O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio
d'algibeira, um belo cronômetro de ouro comprado em Toulon, torceu
o bigode, passou uma vista d'olhos no aparelho, e, dirigindo-se para a
espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara umpouco,
metálica:
- Corneta!
Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e inteligentes,
grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar
de navegação prática.
Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava
d'olhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de
um modo admirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a
hora meridiana....
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