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POLÍTICAS SOCIAIS CONTEMPORÂNEAS: TESES PARA DISCUSSÃO(

Lúcia Maria Wanderley Neves((






Pretendo neste artigo apresentar duas teses para discussão. A primeira afirma que as políticas sociais no mundo contemporâneo vêm se constituindo em instrumento fundamental na difusão de uma nova pedagogia da hegemonia do capital. A segunda afirma que as políticas sociais no Brasil de hoje,na condição de difusoras de uma nova pedagogia da hegemonia, têm por objetivo consolidar entre nós um novo padrão de sociabilidade, por meio da disseminação da ideologia da responsabilidade social.





As políticas sociais e a difusão de uma nova pedagogia da hegemonia


A nova pedagogia da hegemonia consiste em uma série de formulações teóricas e de ações político-ideológicasutilizadas pela burguesia para assegurar, em nível mundial e no interior de cada formação social concreta, a dominação de classe, a partir da redefinição de seu projeto de sociedade e de sociabilidade para os anos iniciais do século XXI.


A nova pedagogia da hegemonia consubstancia uma estratégia de legitimação social do capital depois que as receitas preconizadas pelo “Consenso deWashington” para retomada do crescimento econômico e redução das desigualdades sociais na década de 1980 e anos iniciais dos anos de 1990 mostraram-se insuficientes para assegurar a coesão social no capitalismo neoliberal, tornando imprescindível uma redefinição das estratégias de busca do consenso (NEVES, 2005).


Essas novas demandas do capital nos anos finais do século XX exigiram do Estadocapitalista um novo formato no seu papel educador, de modo a permitir a viabilização de um processo de mudança no padrão de politização das sociedades contemporâneas.


Processou-se tal redefinição por meio de um variado e complementar movimento de repolitização da política inspirado nos postulados e práticas do que se convencionou chamar de “reinvenção da democracia” ou de “democratizaçãoda democracia”. As origens desse movimento localizam-se, nos Estados Unidos, na agenda política dos “novos democratas” – principalmente a partir da eleição de Bill Clinton em 1992 – e, na Europa, no movimento de redefinição programática dos partidos social-democratas, intensificado com a instalação do governo Tony Blair em 1998, na Inglaterra, e ampliado com o programa da terceira via.Um primeiro movimento da nova pedagogia da hegemonia diz respeito à viabilização do retorno ou da permanência de um conjunto significativo da população ao nível mais primitivo da convivência coletiva, no qual os agrupamentos sociais organizam-se conforme sua função e posição na produção, sem uma maior consciência de seus papéis econômico e político-social. Nesse movimento, são incentivadas pelaaparelhagem estatal, por organismos diversos da sociedade civil e por empresas, formas de participação política caracterizadas pela busca de soluções individuais ou grupistas para problemas coletivos.


No Brasil, estudo coordenado por Landim e Scalon (2000), citado por INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (2004), apontou para o já elevado número de 19,7 milhões de voluntáriosexistentes no país nos anos finais do século passado, período em que a nova pedagogia da hegemonia ainda dava, entre nós, os seus primeiros passos.


Um segundo movimento dessa nova pedagogia da hegemonia traduz-se no desmantelamento e/ou refuncionalização dos aparelhos privados de hegemonia da classe trabalhadora que vinham até então se organizando com vistas à ampliação de direitos e/ouconstrução de um projeto socialista de sociedade e de sociabilidade. Esses organismos passam a atuar como parceiros na construção de uma nova “sociedade do bem-estar”, ora participando diretamente da execução das políticas sociais do neoliberalismo reformado, ora redefinindo o escopo de suas lutas ao nível da construção de um capitalismo de face humanizada, considerado como única solução possível...
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