As farc uma guerrilha sem fins

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  • Publicado : 22 de março de 2013
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As Farc uma Guerrilha sem Fins?

O livro de Daniel Pécaut sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) tem vários méritos importantes. Começando pelo mais abrangente, traz uma reflexão ideologicamente desapaixonada, bem informada e esclarecedora sobre uma organização que atua de forma ininterrupta desde 1966 e que gera interpretações ao mesmo tempo diversas e polêmicas sobre seupoder, objetivos políticos, inserção na sociedade colombiana, interlocução com o crime organizado e vinculações internacionais, seja com forças políticas ou governos.
Os temas mencionados são tratados ao longo dos capítulos do livro, numa análise que avança até o final do segundo mandato de Álvaro Uribe, cuja presidência, para além das diferenças de posições próximas ou críticas, é considerada ummarco na reversão de tendência no combate às FARC em condições favoráveis ao Estado colombiano.
Exemplos reveladores dessa situação são as exitosas operações que resultaram na morte do comandante Raul Reyes em seu acampamento em território equatoriano e no resgate de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns, respectivamente em março e julho de 2008.
Passando para os méritos mais específicos,começamos pela valorização feita pelo autor dos aspectos associados à história e à geografia do país como elementos estruturais que permitem entender o surgimento e a longevidade do fenômeno da guerrilha, que envolve não apenas as FARC, mas outras três organizações que tiveram importante atuação em diversos momentos das décadas recentes: ELN (Exército de Libertação Nacional), EPL (Exército Popular deLibertação), M19 (Movimento 19 de abril).
Mais do que a influência da Revolução Cubana e outras experiências internacionais como a Revolução Vietnamita, pesa na Colômbia uma trajetória de conflito armado que marca a política desde o século XIX, agravada com a guerra civil desatada por disputas entre o Partido Liberal e o Partido Conservador a partir de 1946, iniciando a década conhecida como LaViolencia, com saldo de 200.000 mortos.
Paralelamente à trajetória histórica, a peculiar geografia do país contribui tanto para o conflito como para a estabilidade, já que a Colômbia não foi atingida pelo fenômeno do militarismo que assolou boa parte dos seus vizinhos nas décadas da Guerra Fria, mantendo-se a continuidade institucional. Sendo um país com costa para o Pacífico e para o Atlântico einternamente dividido por três cordilheiras, sua geografia comporta marcadas separações regionais e colabora para acentuar fortes diferenças culturais.
Ao mesmo tempo em que o processo de ocupação territorial foi acompanhado de violentas disputas, favoreceu posteriormente a cristalização de um conjunto fragmentado de elites locais que dificulta a concentração do poder em âmbito nacional e contribuipara a estabilidade política na gestão do Estado.
A convergência dos aspectos estruturais apontados, junto ao acirramento de disputas políticas nos anos de La Violencia, representará o cenário favorável à propagação de conflitos agrários contra as elites locais e a hegemonia nacional concentrada no bipartidarismo Conservador e Liberal. Nesse contexto, o Partido Comunista da Colômbia, como parte dasua estratégia de diversificar as formas de luta, propõe a criação das FARC, organização que desde o início terá no setor rural o núcleo da sua inserção social.
A partir do percurso iniciado nesse momento, Pécaut propõe quatro períodos de evolução das FARC: estagnação entre 1966 e 1980, expansão de 1980 a 1990, ofensiva de 1990 a 2002 e recuo entre 2002 e 2008, que coincide com as duasadministrações de Álvaro Uribe.
Ao longo dessas mais de quatro décadas, a análise do percurso das FARC vai além dos aspectos relacionados à situação colombiana, trazendo ingredientes interessantes para a compreensão das mudanças pelas quais passam as relações dos Estados Unidos com a América Latina, a estratégia e a atuação da esquerda latino-americana, a política regional e o perfil dos seus governos....
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