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20 de fevereiro de 2005

Ecologia de comunidades

Felipe A. P. L. Costa (*) La Insignia. Brasil, fevereiro de 2005.

O termo "comunidade" tem uma história de uso bastante flexível na literatura ecológica, quase sempre para fazer referência a um agrupamento de espécies que vivem temporariamente juntas. Dos três níveis tradicionais de estudo em ecologia (organismos individuais, populações deindivíduos, comunidades de espécies), a comunidade representa o mais arbitrário e abstrato de todos, pois, como nem todas as espécies que vivem juntas interagem de modo significativo, muitas vezes é difícil decidir quem participa ou não da comunidade. A rigor, na ausência de mudanças bruscas de hábitat, quando a paisagem natural tende então a diferir de modo mais evidente, a delimitação decomunidades é quase sempre uma decisão arbitrária, que varia de acordo com os interesses do observador. Dificuldades metodológicas e operacionais, no entanto, não impedem que comunidades sejam um foco recorrente de estudos científicos. Antes de mais nada, o enfoque comunitário é necessário para investigar de modo apropriado uma série de fenômenos ecológicos emergentes (ciclagem de nutrientes, mimetismo,partilha de recursos, sucessão etc.), que não poderiam ser explicados ou reduzidos ao nível populacional - a exemplo, aliás, do que ocorre com atributos populacionais, que não podem simplesmente ser reduzidos ao nível individual. A ecologia de comunidades mudou bastante ao longo do século 20. Os estudos iniciais eram essencialmente descritivos, inspirados nos relatos que os naturalistas europeusfizeram de suas viagens pelo Novo Mundo, nos séculos 18 e 19. Boa parte do trabalho consistia em nomear e classificar as comunidades, como se elas fossem organismos. Surgiu então a visão de comunidade como um todo integrado ("superorganismo"), defendida inicialmente por F. [Frederick] E. [Edward] Clements (1874-1945), ao mesmo tempo em que surgia uma escola contrária, liderada por H. [Henry] A.[Allen] Gleason (1882-1975). Com o acúmulo de estudos descritivos, diversas generalizações começaram a ser formuladas, embora os avanços tenham sido modestos até meados do século 20 [1]. Foi a partir da década de 1950 que a disciplina ganhou contornos mais nítidos e uma crescente sofisticação teórica e conceitual [2]. No final da década de 1970 e início da de 1980, surgiram polêmicas acirradas emtorno do papel das interações contemporâneas (principalmente, competição) na estruturação de comunidades. Alguns autores passaram a enfatizar o papel de processos históricos, não-competitivos. Por sua vez, surgiram propostas metodológicas mais rigorosas, como os chamados "modelos nulos". No fim das contas, as perguntas e os testes tornaram-se mais rigorosos e menos ingênuos - em poucas palavras:afinal, as espécies que vivem juntas evoluíram especializações para evitar competição ou elas são capazes de conviver justamente por que já exploravam recursos algo distintos?

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Comunidades, assembléias, guildas Em termos pragmáticos, biólogos costumam definir comunidades com base em critérios que podem ser reunidos em três grupos principais: critérios espaciais, critérios taxonômicos ecritérios tróficos [3]. A definição espacial é a mais ampla e liberal das três, podendo incluir todas as espécies que vivem em determinado hábitat (digamos, a comunidade formada por todos os organismos vivos de uma floresta ou um lago) ou em microhábitats particulares (a comunidade do dossel ou da serapilheira de uma floresta, por exemplo). Os outros critérios são mais restritivos. Uma definiçãotaxonômica, por exemplo, incluiria, entre todas as espécies presentes em determinado hábitat, apenas aquelas que pertencem a um mesmo agrupamento taxonômico (mesmo gênero, família ou ordem, por exemplo), independentemente do modo como interagem entre si ou exploram os recursos disponíveis. Agrupamentos de espécies definidos com base em afinidades taxonômicas são conhecidos na literatura ecológica como...
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