O mal-entendido da democracia

Páginas: 65 (16246 palavras) Publicado: 13 de fevereiro de 2015
O mal-entendido da democracia
Sergio Buarque de Hollanda, Raizes do Brasil, 1936*
Leopoldo Waizbort

Preâmbulo
Ler Raízes do Brasil na contracorrente pode ser
válido, com vistas a eriçar alguns pontos de interesse para o pensamento político e social de seu autor
e de sua circunstância.1 Mas isso exige delinear, em*

Este texto foi apresentado, de modo condensado, em
conferência noInstituto de Estudos Brasileiros da
USP em 17 de novembro de 2008 e no Seminário “O
Brasil (não é) para principiantes” do GT “Pensamento
Social no Brasil” da Anpocs, em 17 de março de 2009.
Agradeço aos convites dos organizadores dos dois
eventos, assim como às críticas e sugestões dos participantes e de outros/as colegas, que posteriormente
puderam ler e comentar o texto. A responsabilidadepelo texto é entretanto exclusivamente minha. Neste
artigo, a partir de agora atualizo a ortografia de Raizes
do Brasil.

Artigo recebido em agosto/2010
Aprovado em fevereiro/2011

bora do modo o mais esquemático, a corrente que
conduz majoritariamente as leituras dessa caudalosa interpretação do Brasil.
No caso de Raízes do Brasil, essa tarefa é em
grande medida facilitada pelo prefácio –sem esse
nome – que Antonio Candido escreveu para o livro em 1967 (portanto, em um momento tenso da
história nacional) e que, desde então, é reproduzido
nas reedições, como um movimento de abertura
que acaba sendo lido quase como se fosse um capítulo inicial do livro, não raro acabando por sugerir
e direcionar a compreensão do que lhe sucede.
Isso ocorre por variadas razões. A primeira é
aconjugação característica de Antonio Candido
em agudeza ímpar e clareza de exposição, que no
caso da leitura proposta de Raízes do Brasil tem o
papel adicional de atenuar as muitas ambiguidades do texto e firmar o rumo de uma interpretação
mais plana, que diminui suas tensões. Em segundo
lugar, a forma adotada do prefácio-introdução, de
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fato de caráter introdutório, percorrendo o livro capítulo a capítulo e apontando, a cada passo, quais
são os temas relevantes, qual o encaminhamento a
eles dado pelo autor e, por fim, qual o sentido geral
do argumento, quando não clara e integralmente
desenvolvido ou explicitado por Sérgio Buarque deHolanda. Resulta dessa visada um autor claramente
progressista, engajado na ruína das antigas oligarquias e no “advento de novas camadas” (Candido, 2006 [1967], p. 248). Nesse ponto particular,
entretanto, Antonio Candido parece não ter sido
suficientemente claro, chegando mesmo a, posteriormente, procurar desenvolver e clarificar essa
ideia, ao argumentar que encontramos, em Raízes
do Brasil,um “radicalismo potencial das classes médias” comprometido com o “povo” (Candido, 2006
[1986], p. 252).2
A leitura de Antonio Candido, como disse norteadora, enraíza retrospectivamente o livro em um
contexto intelectual e social e busca, nesse enraizamento, dissipar ambiguidades de natureza sobretudo política, convertendo o livro em um pioneiro do
radicalismo democrático.
No polo oposto auma leitura como a de Antonio Candido, encontramos leituras que operam
uma desistorização do texto, lançando mão de procedimentos vários para desenraizar o texto de seu
contexto. Um exemplo extremo, e por isso muito
ilustrativo, é uma argumentação que justifica as
ambiguidades do texto por meio de uma metaforologia, operando um esvaziamento do político
às custas da metáfora ou, por outra,utiliza-se do
argumento da metáfora para subtrair o argumento
político.3 Uma tal consideração do texto sob a perspectiva metafórica dilui seu sentido histórico – seu
enraizamento em um contexto social e histórico determinado – e, no limite, a sua legibilidade.
A essas duas leituras – tomadas aqui mui rapidamente e apenas a título de ilustração – bastaria
apenas lembrar o desconforto e o...
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