A face oculta da Caridade

Páginas: 32 (7884 palavras) Publicado: 20 de junho de 2014
Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação

A FACE OCULTA DA CARIDADE: 1
linhas de força e de fratura no discurso midiático do bem
Luciane Lucas2
Tânia Hoff

3

Resumo: Discutindo o conceito de cidadania e sua apropriação pela mídia como
algo a ser ‘oferecido’ às minorias, este artigo analisa não só as condições materiais
e simbólicas que envolvem a comunicaçãobaseada na discursificação do bem, mas
também as condições de legitimação do poder pelo uso abusivo do conceito de
cidadania e a possibilidade política de um discurso de ruptura. Considerando a
noção foucaultiana de linhas de força, discutimos como o uso midiático do termo
cidadania pode resvalar, paradoxalmente, para a construção de representações
sociais inadequadas e para o fenômeno socialda humilhação, à medida que a
autonomia das minorias é progressivamente minada por um discurso de
docilização, que congela a alteridade na posição permanente de devedor.
Discutimos ainda a possibilidade de uma comunicação contra-hegemônica,
comprometida com o empoderamento de minorias e com o sentido arendtiano de
cidadania, calcado nas condições políticas de ação e palavra.
Palavras-chave:1. empoderamento discursivo 2. humilhação social 3. cidadania

1. A outra face do ‘dom’ e a humilhação social por trás da discursificação do bem
O termo cidadania tem sido permanentemente empregado na mídia – e, na
seqüência, banalizado em formas múltiplas de comunicação – como se encerrasse valores ou
condições transferíveis a outros indivíduos. Ou seja, o uso do termo parece sugerir semprealgo que pudesse ser conferido a outrem ou que definisse um modelo de comportamento, uma
postura diante do mundo. Na prática, entretanto, esta idéia - legitimada no senso comum e em
algumas correntes do conhecimento - não se sustenta.
De modo mais profundo, o pensamento de Hannah Arendt, que adotamos no
presente artigo, apresenta a cidadania como diretamente relacionada às condições de ação epalavra de que um sujeito pode ser portador. Na impossibilidade de ser protagonista de sua
1

Trabalho apresentado ao GT “Economia Política e Políticas da Comunicação”, do XVII Encontro da Compós,
na UTP, em Curitiba, PR, em junho de 2008.
2
Profa. Doutora do Programa de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de
Propaganda e Marketing - ESPM .
3
Profa.Doutorado Programa de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de
Propaganda e Marketing – ESPM.

1

Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação

história ou da história de seu grupo, torna-se inviável a condição de cidadão. Assim, um
indivíduo não é cidadão apenas porque contribuiu solidariamente para reduzir o sofrimento
do outro, como usualmente amídia reforça a todo momento, mas porque tem condições
asseguradas ele mesmo de expressar-se, de interferir no modelo de constituição de sentido em
que ele está socialmente inserido, de agir sobre suas condições materiais e simbólicas de
existência. Ou seja, “cidadão é quem, em companhia de outros cidadãos, toma iniciativas e
anuncia iniciativas por meio da voz, por meio de palavras”(GONÇALVES FILHO, 2007, p.
199).
Esta aptidão própria do cidadão para ser iniciador revela a imprescindibilidade de
poder escolher suas próprias soluções e intervir no próprio destino, a despeito das condições
externas desfavoráveis e do ambiente de dominação em que possa estar inserido. Isso mostra
que a cidadania não é uma condição que possa ser repassada, como um presente, ou possa ser
conferidacomo uma espécie de aprendizado. Isso não significa, entretanto, que ela não possa
ser impedida, à medida que relações de dominação tendem a suprimir os ingredientes básicos
para sua constituição: estamos falando da palavra e também da ação que o empoderamento
discursivo confere. Assim, ser iniciador pressupõe a capacidade de poder intervir nos
automatismos sociais (GONÇALVES FILHO, 2007) e...
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