A desoberta da alteridade pelos viajantes

Páginas: 6 (1427 palavras) Publicado: 9 de agosto de 2013

LAPLANTINE, François. APRENDER ANTROPOLOGIA. São Paulo: Brasiliense, 13 ed. 1999.

PRIMEIRA PARTE

Marcos para uma história do pensamento antropológico.


Século XVI: a descoberta da “alteridade” pelos viajantes.

Segundo Laplantine (1999), a gênese da reflexão antropológica é a descoberta do Novo Mundo. À medida que os europeus expandem seu domínio além-mar, explorando lugares epovos distantes, até então desconhecidos, eles começam a elaborar discursos sobre esses lugares e seus habitantes. “A grande questão que é então colocada, e que nasce desse primeiro confronto visual com a alteridade, é a seguinte:.aqueles que acabaram de serem descobertos pertencem à humanidade?” (LAPLANTINE, 1999, p.37). A pergunta que se impõe obedece um critério religioso: o selvagem teriaalma? Segundo o mesmo autor, essa questão será resolvida somente dois séculos mais tarde.
A partir daí duas ideologias ganham força: uma que reforça a RECUSA DO ESTRANHO, outra que se sustenta pela FASCINAÇÃO PELO ESTRANHO. Essas duas ideologias concorrentes dão origem a alguns estereótipos sobre esses povos.

1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO


“A extrema diversidade dassociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato, e sim como uma aberração exigindo uma justificação. A antiguidade grega designava sob o nome de bárbaro tudo o que não participava da helenidade (em referência à inarticulação do canto dos
pássaros oposto à significação .da linguagem humana), o Renascimento, os séculos XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto é, seres dafloresta), opondo assim a animalidade à .humanidade. O termo primitivos é que triunfará no século XIX, enquanto optamos preferencialmente na época atual pelo de subdesenvolvidos.
Essa atitude, que consiste em expulsar da cultura, isto é, para a natureza todos aqueles que não participam da faixa de humanidade à qual pertencemos' e com a qual nos identificamos, é, como lembra Lévi-Strauss, a mais comum atoda a humanidade, e, em especial, a mais característica dos
"selvagens". (LAPLANTINE, 1999, p. 40)

São vários os critérios utilizados para se saber se aos índios podia se conceder o estatuto de humano. Laplantine (1999, p.41) cita alguns:

a aparência física: eles estão nus ou "vestidos de peles de animais";
os comportamentos alimentares: eles" comem carne crua", e é todo o imaginário docanibalismo que irá aqui se elaborar;
a inteligência tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles falam "uma língua ininteligível".

Assim, não acreditando em Deus, não tendo alma, não tendo acesso à linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal, o selvagem é apreendido nos modos de um bestiário. E esse discurso sobre a alteridade, que recorre constantementeà metáfora zoológica, abre o grande leque das ausências: sem moral, sem religião, sem lei, sem escrita, sem Estado, sem consciência, sem razão, sem objetivo, sem arte, sem passado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentará até, no século XVIII: "sem barba". "sem sobrancelhas", "sem pêlos", sobrancelhas", "sem espírito" "sem ardor para com sua fêmea".


Muitos textos da época vão reforçar estaconcepção: a de que os indígenas representariam o avesso da “civilização”. De um lado, a civilização e a humanidade (Velho Mundo), do outro, a natureza e a barbárie (Novo Mundo). Importante frisar, que além dos povos da América, os do continente Africano eram suscetíveis da mesma leitura.

Tudo, na África, é nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os "negros" não respeitam nada, nemmesmo eles próprios, já que comem carne humana e fazem comércio da "carne" de seus próximos. Vivendo em uma ferocidade bestial inconsciente de si mesma, em uma selvageria em estado bruto, eles não têm moral, nem instituições sociais,religião ou Estado. Petrificados em uma desordem inexorável, nada,nem mesmo.as força da colonização, poderá nunca preencher o fosso que os separa da História...
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