memoria esquecimento ,silencio

Páginas: 29 (7043 palavras) Publicado: 27 de novembro de 2013
Memória,
Esquecimento,
Silencio•
Michael Pollak*
========================================================================
Em sua análise da memória coletiva, Maurice Halbwachs enfatiza a força dos diferentes
pontos de referência que estruturam nossa memória e que a inserem na memória da coletividade
a que pertencemos.1 Entre eles incluem-se evidentemente os monumentos, esses lugares damemória analisados por Pierre Nora,2 o patrimônio arquitetônico e seu estilo, que nos
acompanham por toda a nossa vida, as paisagens, as datas e personagens históricas de cuja
importância somos incessantemente relembrados, as tradições e costumes, certas regras de
interação, o folclore e a música, e, por que não, as tradições culinárias. Na tradição metodológica
durkheimiana, que consiste emtratar fatos sociais como coisas, torna-se possível tomar esses
diferentes pontos de referência como indicadores empíricos da memória coletiva de um
determinado grupo, uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações, uma
memória também que, ao definir o que é comum a um grupo e o que, o diferencia dos outros,
fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteirassócio-culturais.
Na abordagem durkheimiana, a ênfase é dada à força quase institucional. dessa memória
coletiva, à duração, à continuidade e à estabilidade. Assim também Halbwachs, longe de ver
nessa memória coletiva uma imposição, uma forma específica de dominação ou violência
simbólica,3 acentua as funções positivas desempenhadas pela memória comum, a saber, de
reforçar a coesão social, não pelacoerção, mas pela adesão afetiva ao grupo, donde o termo que
utiliza, de "comunidade afetiva". Na tradição européia do século XIX, em Halbwachs, inclusive,
a nação é a forma mais acabada de um grupo, e a memória nacional, a forma mais completa de
uma memória coletiva.
Em vários momentos, Maurice Halbwachs insinua não apenas a seletividade de toda memória,
mas também um processo de"negociação" para conciliar memória coletiva e memórias
individuais: "Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam
seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias



Esta tradução é de Dora Rocha Flaksman.

*

Michael Pollak é pesquisador do Centre National de Recherches Scientifiques - CNRS, ligado ao Institutd'Histoire
du Temps Present e ao Groupe de Sociologie Politique et Morale. Estuda as relações entre política e ciências sociais
e desenvolve atualmente uma pesquisa sobre os sobreviventes dos campos de concentração e sobre a Aids.

1

M. Halbwachs, La mémoire collective, Paris, PUF, 1968.

2

P. Nora, Les lieux de mémoire, Paris, Gallimard, 1985.

3

Para o conceito de violência simbólica,ver P. Bourdieu, Le sens pratique, Paris, Minuit, 1980, p. 224.

Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros
nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum."4
Esse reconhecimento do caráter potencialmente problemático de uma memória coletiva já
anuncia a inversão deperspectiva que marca os trabalhos atuais sobre esse fenômeno. Numa
perspectiva construtivista, não se trata mais de lidar com os fatos sociais como coisas, mas de
analisar como os fatos sociais se tornam coisas, como e por quem eles são solidificados e dotados
de duração e estabilidade. Aplicada à memória coletiva, essa abordagem irá se interessar portanto
pelos processos e atores queintervêm no trabalho de constituição e de formalização das
memórias. Ao privilegiar a analise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história
oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas
minoritárias e dominadas, se opõem à "Memória oficial", no caso a memória nacional. Num
primeiro momento, essa abordagem faz da empatia com os...
Ler documento completo

Por favor, assinar para o acesso.

Estes textos também podem ser interessantes

  • Memória, esquecimento e silencio
  • Memória, Esquecimento, Silêncio
  • POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio
  • Memória, Esquecimento
  • Memória e esquecimento
  • Memória e Esquecimento
  • Atenção, memória e esquecimento
  • A psicologia no brasil: memoria e esquecimento

Seja um membro do Trabalhos Feitos

CADASTRE-SE AGORA!