Max e os Felinos

Páginas: 12 (2787 palavras) Publicado: 18 de setembro de 2014
Inspiração de Yann Martel no livro Max e os Felinos, Intertextualidade ou Plágio?

Joice Taú (UFSC)1


“Nada mais original, nada mais próprio do que nutrir-se dos outros. Mas é preciso digeri-los. O leão é feito de carneiro assimilado. Plagiário é aquele que digeriu mal a substância do outro: torna seus pedaços reconhecíveis. Não há escritores originais, pois aqueles que merecem este nomesão desconhecidos e mesmo irreconhecíveis. Mas existem aqueles que aparentam sê-lo.”
— Paul Valéry


Muito foi dito sobre o possível plágio que o escritor brasileiro, Moacyr Scliar, falecido há quase dois anos (27 de fevereiro de 2011), sofreu. A acusação é de que o escritor canadense de Life of Pi — a novel (2001), Yann Martel (1963-), vencedor do Booker Prize em 2002, prêmio literário maisimportante da língua inglesa, teria plagiado a história de Max e os Felinos (1981), obra do escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011), traduzida para a língua inglesa em 1990. O presente ensaio tem como objetivo principal colocar em paralelo a obra de Yann Martel com Max e os felinos de Scliar, retomando a polêmica divulgada na imprensa internacional no final do ano de 2002. Ao estudar assemelhanças e diferenças entre as duas obras, busco promover um debate sobre o uso da inspiração literária, bem como o uso da intertextualidade, definindo os limites sobre o que é inspiração e o que é plágio. Para esta análise, serão abordadas as definições dadas por alguns teóricos significativos sobre intertextualidade, e apresentados os conteúdos das duas obras em questão, destacando os pontos em queestas se assemelham, e os pontos que as diferenciam.
Mikhail Bakhtin, teórico linguista russo, defende a ideia de que toda a escritura é leitura de um corpus literário anterior, e entende o “texto como absorção e réplica a um outro texto...” (Apud. Kristeva, 1974), ou seja, a escritura é entendida como releitura de um corpus literário anterior. O conceito clássico de intertextualidade foi escritopor Julia Kristeva em sua obra Introdução à Semanálise:
(…) segundo a qual a palavra literária não é um ponto (um sentido fixo), mas um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras: do escritor, do destinatário (ou da personagem), do contexto cultural atual ou anterior. (...) todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de umoutro texto. Em lugar da noção de subjetividade, instala-se a intertextualidade e a linguagem poética lê-se pelo menos como dupla” (KRISTEVA, 1974).

Para o filósofo, escritor e poeta francês Paul Valery, não há obra absolutamente pura que não esteja contaminada pela leitura de outra obra, e para Antoine Compagnon, o intertexto funciona como um jogo de quebra-cabeças, no qual, as peças, nem semprese encaixam naturalmente, por meio de corte, citação, enxerto, colagem. É preciso alterar as peças, pervertê-las, recriá-las, superar conflitos, ressaltar os contrários: acomodar e apropriar-se de são constitutivos dos fundamentos do texto, sempre compreendido como reescritura (COMPAGNON, 2007).
Nas palavras da Profª Drª Salma Ferraz:
a intertextualidade é muito liberal, pois os textos seofertam, se dão a outros textos, e deles nascem filhos bastardos, mas que ao mesmo tempo são filhos legítimos, filhotes híbridos. Um texto seduz outro texto, um texto namora outro texto, namora e corteja diversos textos ao mesmo tempo, casa-se com um, divorcia-se, casa-se com outros. Por vezes, em paralelo, mantém uma certa clandestinidade afetiva. Outras, casa-se com vários; é bigamo, trígamo,polígamo. Escrituras que se atraem e que geram novas escrituras, não mais as mesmas, mas outras, com a marca da primeira. Bordas de textos que se tocam, acariciam-se e se reproduzem infinitamente. Paulo Leminski já afirmava em seu livro Ensaios Crípticos: A literatura é telepatia com todo o passado, as obras são variantes de todas as obras anteriores. Não é o indivíduo que faz literatura, é a...
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