Livro ver e nao ver Oliver Sacks

Páginas: 71 (17707 palavras) Publicado: 23 de outubro de 2013
VER E NÃO VER

No início de outubro de 1991, recebi o telefonema de um pastor aposentado do Centro-Oeste, Falando-me do noivo de sua filha, um homem de cinquenta anos chamado Vir Gil, que era praticamente cego desde a mais tenra infância. Tinha densas cataratas e também fora
diagnosticado como portador de retinite pigmentosa, uma doença hereditária que devora as
retinas vagarosa porémimplacavelmente. Sua noiva, Amy, entretanto, cujo diabetes exigia
exames regulares dos olhos, levara-o recentemente a seu oftalmologista, o Dr. Scott Hamlin, que lhes dera novas esperanças. Após escutar atentamente a história, o Dr. Hamlin não teve tanta certeza de que Virgil sofresse de retinite pigmentosa. Era difícil saber, naquele estágio, porque as retinas já não podiam ser observadas sob asespessas cataratas, mas Virgil ainda podia ver luzese sombras, a direção de onde vinha a luz, e a sombra de mãos movendo-se diante de seus olhos, portanto era óbvio que não havia destruição total da retina. E a operação de catarata é uma cirurgia relativamente simples, feita com anestesia local e riscos cirúrgicos muito pequenos. Não havia nada a perder -- e possivelmente muito a ganhar. Amy eVirgil iam se casar em breve -- não seria fantástico se ele pudesse ver? Se, após quase uma vida cego, sua primeira visão fosse a de sua noiva, do casamento, do padre, da igreja! O Dr. Hamlin havia concordado em operá-lo, e a catarata do olho direito fora removida quinze dias antes, segundo me informou o pai de Amy.
Milagrosamente, a operação foi bem-sucedida. Amy, que iniciou um diário no diaseguinte ao da operação -- o dia em que os curativos foram removidos --, escreveu na primeira página: “Virgil pode VER! [...] Todo mundo no hospital em lágrimas, primeira vez que Virgil enxerga em quarenta anos. [...] A família dele excitada, chorando, não podem acreditar! [...] O milagre da vista restaurada inacreditável! “. Mas no dia seguinte, ela notou alguns problemas: “Tentando se adaptar àvisão, é difícil passar da cegueira à visão. Tem que pensar mais depressa, ainda não é capaz de confiar na visão. [...] Como um bebê aprendendo a ver, tudo é novo, excitante, amedrontador, está incerto sobre o que significa ver”. A vida de um neurologista não é sistemática, como a de um cientista, mas lhe fornece situações novas e inesperadas, que podem se transformar em janelas, passagens para acomplexidade da natureza -- uma complexidade que não se pode prever a partir do curso da vida comum. “Não há lugar onde a natureza exponha mais abertamente seus mistérios secretos”, escreveu William Harvey, no século XVII, “do que nos casos em que mostra vestígios de seu funcionamento fora do caminho trilhado.” É certo que esse telefonema -- sobre a restauração da visão na idade adulta, em umpaciente que havia sido cego desde a tenra infância -- sugeria tal coisa. “Na verdade”, escreve o oftalmologista Alberto Valvo, em Sight restoration after long-term blindness, “o número desses casos que chegaram ao nosso conhecimento nos últimos dez séculos não passa de vinte.” Como seria a visão nesse paciente? Seria “normal” a partir do momento em que foi restaurada?
É o que se imagina de início.É a noção do senso comum -- que os olhos se abrirão, as crostas cairão e (nas palavras do Novo Testamento) o cego “receberá” a visão. (nota 1: Há um indício de algo mais estranho, mais complexo, na descrição que Marcos faz do milagre de Betsaida, já que nela o cego viu primeiro “homens como árvores marchando” e apenas posteriormente teve a visão completamente restaurada (Marcos 8:22-6)).
Masserá que foi assim tão simples? Não é necessária a experiência para ver? Não é preciso aprender a ver? Não estava bem a par da literatura sobre o assunto, embora tivesse lido com fascínio a história formidável do caso publicado no Quarterly Journal of Psychology, em 1963, pelo psicólogo Richard Gregory (com Jean G. Wallace), e sabia que tais casos, hipotéticos ou reais, atraíram a atenção de...
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