igor

Páginas: 7 (1708 palavras) Publicado: 12 de janeiro de 2014
COMO SE DESCE UMA MONTANHA
 
 
Não é mais fácil
nem menos perigoso
do que subir
                         — é diverso.
 
Se olhados de fora
— os gestos —
podem parecer mais lentos.
 
Para quem desce
ao contrário, a sensação
não é de vertigem
— é complemento.
 
Subir foi demorado
descer
             é outra arte.
 
É como se Sísifo
do outro lado do monte
estivesse.
 Descer com uma pedra
nos ombros
                        — pode ser leve.
 
 
 
PREPARANDO A CREMAÇÃO
 
 
1
 
Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.
 
O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
                               tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos ospoemas.
 
2
 
Faz um belo dia. Do terraço
vejo o mar:
pescadores cercam um cardume
banhistas seguem
se expondo à vida, ao sol.
Olho a trepadeira de jasmim
os vasos de begônia e gerânios
margaridas brancas e a azaléia:
— a vida continua viva dentro
e ao redor de mim.
 
Poetas antes e depois de Homero
tentaram cantar a morte
(Nos consolaram).
Hamlet (cioso)
dialogou com uma caveirade antemão.
Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.
 
Irei à praia daqui a pouco
mas antes passarei pelo cartório.
 
3
 
Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despedindo dos livros
vizinhos e paisagens.
 
Não sou só eu.Minha mulher
antes de mim no mesmo cartório foi
e ainda mostrou-me o documento.
 
Olho-a neste terraço: lá está ela, viva!
ligada nas plantas e planos. Olho-a:
acabou de fazer um vestido novo.
Como imaginá-la no jamais?
 
Ao lado, o barulho de um túnel que estão cavando:
— é a nova estação do metrô.
Há um alarido de crianças na escola vizinha
e eu saio
                numa esplêndidamanhã de sol
para cuidar de minhas cinzas.
Tenho muito que dialogar com a morte
e a vida ainda.
 
 
 
RITUAL DOMÉSTICO
 
 
Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
Somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.
 
Comemos, conversamos
                                                                   (as velas emtorno)
elogio a comida surpreendente
que ela sempre faz.
 
Falamos do mundo. De nós mesmos.
Volta e meia, ela diz: “Vou te dizer uma coisa
que só posso dizer para você”
e faz uma revelação, como se abrisse um poema.
 
Calmamente o jantar chega ao fim.
Vou tirando as louças
e começo a apagar as velas uma a uma
enquanto soam os últimos acordes barrocos.
 
Menos um dia, uma noite                                                                              — a mais.
 
Junto à porta, a cachorrinha
ora deita-se estirada
ora late para o nada.
 
 
 
PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA
 
 
Parem de jogar cadáveres na minha porta.
 
Tenho que sair
                                       — respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelasfontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeligues.
 
Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos por onde passo.
 
Estou em Essaouira, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas de Diamantina.
 
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombrae abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.
 
Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi,
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.
 
Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos...
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