Filosofia e fé cristã

Páginas: 15 (3576 palavras) Publicado: 4 de julho de 2012
RESUMO
O presente artigo procura analisar a noção de fé em Montaigne, confrontando-a com as idéias de razão e de crença, e também em sua relação com o lugar que é conferido à autoridade pelo autor dos Ensaios. Discute-se principalmente a interpretação bastante estabelecida de que o ceticismo de Montaigne reduziria a fé à esfera das crenças e dos costumes.
Palavras-chave: Montaigne, Ceticismo,Fé, Crença, Razão
Introdução
O pensamento de Montaigne nos é apresentado por interpretações tão clássicas quanto iluminadoras, por exemplo as de Hugo Friedrich e Jean Starobinski, como uma filosofia da pura imanência, do simplesmente humano, ou seja, no qual as questões ligadas à religião e à fé, pelo fato mesmo de serem inatingíveis à razão humana, perdem seu lugar. "Somos cristãos como somosperigordinos ou alemães" — esta frase lapidar da "Apologia de Raymond Sebon"1 sintetizaria, afinal, a questão da religião e da fé em Montaigne. Sobre isso, Starobinski escreve: "(...) no melhor dos casos, a fé cristã pode ser respeitada no costume em que se converteu — na falta de uma certeza melhor".2 A fé seria, então, assimilada à esfera das crenças e a religião aos costumes: como regra devida, Montaigne recomendaria, sem mais, o preceito cético de "seguir os costumes de seu país".
Esta visão parece-nos tão verdadeira quanto limitada. Verdadeira no sentido de que, sem dúvida, os Ensaios se desenvolvem na esfera do meramente humano, como seu autor escreve em "Das preces": "Proponho idéias humanas e minhas, simplesmente como idéias humanas (...), o que penso segundo eu mesmo, e não oque acredito segundo Deus" (I, 56, 323/482). Temos aqui expressão de um pensamento indiscutivelmente laico: de fato, nos Ensaios, o que a Igreja dispõe sobre o arrependimento ou as orações é, digamos assim, colocado entre parênteses como a verdade indiscutível — porque acima da razão humana — da autoridade; enquanto a presença, no cotidiano da vida humana, das tentativas de arrepender-se e daprática efetiva das orações é submetida a uma análise fina e absolutamente autônoma em relação ao que dispõe a ortodoxia.3 O importante a registrar é que, na perspectiva de Montaigne, arrependimento e orações tornam-se objetos de reflexão, enquanto dimensões da vida humana, e, nesse sentido, a esfera da fé é remetida ao solo dos costumes e das crenças, do qual jamais se arranca na dinâmica do texto dosEnsaios. Cabe perguntar se este procedimento nos autorizaria, com tantos intérpretes, a concluir que Montaigne naturaliza o sobrenatural e reduz a questão da fé definitivamente à esfera do costume e das crenças.
Parece-nos, porém, que a constatação acima não basta para dar conta do problema da fé e da religião nos Ensaios. Interpretações recentes têm concedido uma importância maior ao papel docristianismo no pensamento de Montaigne. Deixando de lado as posições extremas, como a de Andrée Comparot, que o torna um fiel agostiniano, ou de Miernowiski, que encontra nos Ensaios o espírito da teologia negativa, passando por Screech, que faz de Montaigne um "propagandista tridentino"4, fiquemos com a afirmação de Fréderic Brahami: o cristianismo desempenha um papel fundamental na estruturaçãodo pensamento de Montaigne e notadamente na configuração do ceticismo do autor.5 Daí que se coloca a necessidade de re-situar o problema da fé na dinâmica dos Ensaios. Para fazer isso vamos, em um primeiro momento, analisar a díade fé-razão, em um segundo, a díade fé-crença e, a seguir, desenvolver uma reflexão sobre a questão da autoridade.
Fé e Razão
Partiremos das conseqüências queMontaigne tira de uma afirmação bastante explícita nos Ensaios: Deus é absolutamente transcendente e está acima de toda a compreensão humana. Assim, sendo a verdade do âmbito do divino e possuída por Deus, ela não pode ser da esfera da razão humana. Escreve Montaigne na "Apologia":
O que nos prega a verdade, quando nos exorta a evitar a filosofia mundana, quando nos inculca tão amiúde que diante de...
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