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Páginas: 19 (4710 palavras) Publicado: 17 de setembro de 2014
O conhecimento histórico e a compreensão do passado: o historiador e a
arqueologia das palavras
Ricardo da COSTA

*
Resumo: O texto trata da hermenêutica imaginativa como método para a
abordagem de documentos históricos – utilizando a arqueologia das palavras
como fase metodológica decisiva da compreensão do passado – e a distinção
entre passado histórico e passado prático como suporteteórico que distingue o
historiador dos outros pesquisadores sociais.

I. A escolha do tema e o amor
“Amei apaixonadamente o Mediterrâneo...”.
(BRAUDEL, 1995: 21)

Não é à toa que Fernand Braudel (1902-1985) marcou época e que seu
Mediterrâneo é um clássico. O mínimo que se pode dizer a respeito dessa obra
é que ela ampliou as possibilidades do gênero em que foi escrita, isto é, a
História(BURKE, 1992: 56). E logo a primeira frase do livro conjuga o verbo
amar. Portanto, seguindo a pista de Braudel, é preciso deixar bem claro uma
coisa: para se escrever boa história, “ou qualquer coisa boa, na verdade”
(TUCHMANN, 1989: 7), deve-se ter paixão pelo assunto. Embora contraditório,
o conceito mais preciso para definir o que quero dizer é paixão racional: pensar
nele, gostar dele,dormir com ele, discuti-lo apaixonada e racionalmente com os
amigos e com os inimigos. Sem esse envolvimento, sem esse sentimento, sem
essa paixão racionalizada e sem esse amor, o historiador estará fadado ao
fracasso, pois não criará a comunicação necessária e fundamental ao seu
ofício. Cativar, envolver, dar prazer ao leitor, encantá-lo, fazer com que ele
tenha vontade de virar a página,essas são obrigações imperativas de quem
lida com as palavras.
No entanto, infelizmente essa não é uma prerrogativa em nossos cursos de
História. Quando se ensina a escrever, ensina-se a escrever mal. A regra
(ainda) é: quanto mais enfadonho o texto, mais científico e mais estimado ele o
será. A forma não é importante, o importante é o conteúdo e a função daquilo
que você escreve. Palavras sãopalavras...
Vou dar apenas um exemplo, dos muitos que presenciei. Certa vez, há pouco
mais de dois anos, em uma aula de um curso de pós-graduação lato sensu na
Ufes, ao tratar da importância da forma para se chegar ao conteúdo, dissertei

para a turma sobre a necessidade do texto agradável, de se buscar a beleza da
forma, estética. Estupefata, uma aluna imediatamente retrucou que faziaHistória para conscientizar as massas, não para dar prazer ao seu leitor. Uma
parte significativa da turma concordou com ela. Perguntei então como ela
conscientizaria as massas sem arregimentar leitores: como ela conquistaria
seu leitor, futuro revolucionário, se não tivesse um bom texto? Ainda brinquei
com isso: disse a ela que, depois de uma noite de amor com seu marido, que
pedisse a ele,satisfeito, saciado e esgotado, que ouvisse a leitura de sua
monografia. Se de bom grado ele aceitasse e gostasse do texto, e só se ele
gostasse do texto, ela poderia então me entregar o trabalho. Caso contrário, eu
seria o único a ler a monografia, e ainda contra a minha vontade.
A turma riu – ninguém acreditou que o marido dela ouvisse ou lesse a
monografia da menina revolucionária. Ou seja,quase todos escreveriam suas
monografias somente para o professor dar a nota, pouquíssimos estavam ali
por prazer ou porque sinceramente gostavam de História. Quem eles
conquistariam?
Depois das gargalhadas de todos, perguntei à aluna: como é que ela pretendia
fazer a revolução da conscientização das massas a partir de seu texto se nem
seu marido o leria, somente eu, pobre, infeliz e oprimidoprofessor, e mesmo
assim obrigado pelas circunstâncias? A coitada da menina não me respondeu,
parece que ficou em crise – e eu nunca soube se ela mudou de idéia a respeito
(bem, li seu trabalho e, infelizmente, foi muito chato lê-lo).
Assim, é fundamental que o historiador, antes de tudo, ao escolher o tema de
sua pesquisa, o faça porque gosta muito do assunto, porque se apaixonou por...
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