Evans Pritchard

Páginas: 24 (5865 palavras) Publicado: 29 de agosto de 2015
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E.E. Evans-Pritchard

Bruxaria, Oráculos e Magia
entre os Azande
Edição resumida e introdução:
Eva Gillies
Tradução:
Eduardo Viveiros de Castro

Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro

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CAPITULO II

A noção de bruxaria
como explicação de infortúnios

I

Da forma como os Azande os concebem, bruxos não podem evidentemente
existir. No entanto, o conceito de bruxaria fornece a elesuma filosofia natural
por meio da qual explicam para si mesmos as relações entre os homens e o infortúnio, e um meio rápido e estereotipado de reação aos eventos funestos. As
crenças sobre bruxaria compreendem, além disso, um sistema de valores que
regula a conduta humana.
A bruxaria é onipresente. Ela desempenha um papel em todas as atividades da vida zande: na agricultura, pesca e caça; na vidacotidiana dos grupos
domésticos tanto quanto na vida comunal do distrito e da corte. É um tópico
importante da vida mental, desenhando o horizonte de um vasto panorama
de oráculos e magia; sua influência está claramente estampada na lei e na moral, na etiqueta e na religião; ela sobressai na tecnologia e na linguagem. Não
existe nicho ou recanto da cultura zande em que não se insinue. Se umapraga
ataca a colheita de amendoim, foi bruxaria; se o mato é batido em vão em busca de caça, foi bruxaria; se as mulheres esvaziam laboriosamente a água de
uma lagoa e conseguem apenas uns míseros peixinhos, foi bruxaria; se as tér-

mitas não aparecem quando era hora de sua revoada, e uma noite fria é perdida à espera de seu vôo, foi bruxaria; se uma esposa está mal-humorada e trata
seu marido comindiferença, foi bruxaria; se um príncipe está frio e distante
com seu súdito, foi bruxaria; se um rito mágico fracassa em seu propósito, foi
bruxaria; na verdade, qualquer insucesso ou infortúnio que se abata sobre
qualquer pessoa, a qualquer hora e em relação a qualquer das múltiplas atividades da vida, ele pode ser atribuído à bruxaria. O zande atribui todos esses
infortúnios à bruxaria, amenos que haja forte evidência, e subseqüente confirmação oracular, de que a feitiçaria ou um outro agente maligno estavam
envolvidos, ou a menos que tais desventuras possam ser claramente atribuídas à incompetência, quebra de um tabu, ou ao não-cumprimento de uma re-

gra moral.
Dizer que a bruxaria estragou a colheita de amendoim, que espantou a
caça, que fez fulano ficar doente equivale a dizer,em termos de nossa própria
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Bruxaria, oráculos e magia

cultura, que a colheita de amendoim fracassou por causa das pragas, que a
caça é escassa nessa época e que fulano pegou uma gripe. A bruxaria participa
de todos os infortúnios e é o idioma em que os Azande falam sobre eles - e
por meio do qual eles são explicados. Para nós, bruxaria é algo que provocava
pavor e repugnância emnossos crédulos antepassados. Mas o zande espera
cruzar com a bruxaria a qualquer hora do dia ou da noite. Ficaria tão surpreso
se não a encontrasse diariamente quanto nós o ficaríamos se topássemos com
ela. Para ele, nada há de milagroso a seu respeito. É de se esperar que uma ca-

çada seja prejudicada por bruxos, e o zande dispõe de meios para enfrentá-los. Quando ocorrem infortúnios, ele não ficaparalisado de medo diante
da ação de forças sobrenaturais; não se põe aterrorizado pela presença de
um inimigo oculto. O que ele fica é extremamente aborrecido. Alguém por
maldade arruinou seus amendoins, ou estragou a caçada, ou deu um susto
em sua mulher, e isso certamente é para se ficar com raiva! Ele nunca fez mal
a ninguém, então que direito tem alguém de se meter nos seus negócios? É
umaimpertinência, um insulto, uma manobra suja e insultuosa. É a agressi-

vidade, e não a estranheza sobrenatural dessas ações, que os Azande sublinham quando falam delas, e é raiva, e não temor, o que se observa em sua
resposta a elas.
A bruxaria não é menos esperada que o adultério. Está tão entrelaçada ao
curso dos acontecimentos cotidianos que é parte do mundo ordinário de um
zande. Nada há de...
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