descartes

Páginas: 22 (5378 palavras) Publicado: 7 de junho de 2014
Descartes, entre Deus e o Diabo...
Breve consideração sobre a estratégia cartesiana para
conquistar a certeza da ciência nas Meditationes.1
Juan Adolfo Bonaccini2
Muita gente conhece os textos de Descartes, pelo menos os mais lidos, o Discours
de la Méthode, as Meditationes de prima philosophia, os Principia philosophiae, as
Regulae ad directionem ingenii. Mas poucas vezes se atenta para ofato de que um homem
de ciência como Descartes esteja preocupado em erigir uma metafísica e fundamentá-la de
modo último como a base necessária de todas as ciências. Ignora-se por que um cientista
como Descartes crê ser imperioso demonstrar a existência de Deus, a distinção essencial
entre corpo (divisível) e a alma (indivisível) e a possibilidade real de um conhecimento
certo e indubitávelacerca dos corpos e suas relações essenciais. Dois problemas,
relacionados entre si, são responsáveis por essa preocupação de Descartes: a condenação e
subsequente retratação de Galileu, que despertou o horror cartesiano perante o risco de ser
condenado pela Inquisição e pela Ortodoxia da Igreja3, e o desafio cético, em voga depois
da tradução de Sexto Empírico por Henri Estienne e suaconhecida reapropriação por
Montaigne e Charron4. Por um lado, Descartes precisa mostrar que não é um herege e que a
ciência que está a construir é compatível com os dogmas da Igreja; e mais, que essa ciência
deve ser fundada metafisicamente em tais dogmas5. Com isso ele atinge tanto a ortodoxia
tradicional, que renega e persegue a nova ciência (por ser incompatível com os dogmas da

1

Disponívelno endereço eletrônico http://criticanarede.com/hist_descartdeus.html.
Professor do Departamento de Filosofia e Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia
da UFRN. juan@cchla.ufrn.br
3
GAUKROGER, Stephen. Descartes: uma biografia intelectual. Rio de Janeiro: EDUERJ/Contraponto,
1999, pp. 358-359.
4
RICKEN, Friedo. Antike Skeptiker. Muenchen: Beck, 1994, pp. 9-10.
5
Deacordo com a conhecida distinção entre a ordem do conhecer e a ordem do ser, cabe lembrar que é o
Deus bom e veraz que é o fundamento de todo conhecer na ordem do ser, muito embora isto precise ser
demonstrado partindo de um princípio indubitável - eu sou, eu existo -, imune ao desafio cético, na ordem do
conhecer, num procedimento mais ou menos análogo ao da geometria, onde se demonstram passo apasso
teoremas a partir de axiomas evidentes.
2

Igreja), como o fideísmo que se utiliza do arsenal cético, ora para atacar a revolução
científica moderna, ora para atacar a Reforma, ora para defendê-la6. Por outro, Descartes
precisa refutar os céticos, neopirrônicos ou não, que defendem a impossibilidade do
conhecimento indubitável na ciência humana7.
Assim, do lado fideísta, ao erguer atese de que nada pode ser conhecido, porque
não pode ser demonstrado com certeza, e por isso a revelação é a única certeza que
podemos aceitar, o desafio cartesiano é duplo: primeiro, mostrar com argumentos racionais
que podemos conhecer com certeza, e segundo que esta certeza não só não é incompatível
com os dogmas da revelação, mas ainda se funda racionalmente sobre alguns deles (porexemplo, a existência de um criador perfeito, do livre-arbítrio no homem, da alma
imaterial, etc.). Do outro lado cético que Descartes enfrenta, trata-se de utilizar e inclusive
aprimorar as armas dos céticos. Trata-se de enfrentá-los e vencê-los na arena de sua própria
suspeição. O famoso método da dúvida funciona como o fio condutor através do qual
Descartes conduz o leitor à certeza da verdade,quer este seja cético acerca da possibilidade
de um conhecimento (metafísico ou matemático) indubitável e infalível na esfera humana,
quer seja cético acerca do alcance do conhecimento sensível dos corpos físicos e de suas
relações entre si.
Por isso o ponto de partida somente pode ser uma dúvida que abarque a falta de
certeza tanto do conhecimento sensível quanto do racional, a qual se...
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