Baianos Malandros

Páginas: 25 (6224 palavras) Publicado: 6 de maio de 2015
BAIANOS E MALANDROS:
A SACRALIZAÇÃO DO HUMANO NO PANTEÃO
UMBANDISTA DO SÉCULO XX
Mario Teixeira de Sá Júnior∗
RESUMO: Este artigo procura examinar a relação entre os novos personagens
surgidos no panteão umbandista ⎯ baianos e malandros ⎯ com as transformações
pelas quais passou a sociedade brasileira ao longo das décadas de 1930 a 1960 e,
em especial, percebendo as especificidades dessastransformações nas cidades de
Dourados (MS) e Rio de Janeiro (RJ).

ABSTRACT: This article seeks to examine the relation between the new characters
born in umbanda ⎯ the baianos and the malandros ⎯ and the changes through
which the Brazilian society went through between the 1930’s and the 1960’s, and
specially, pointing the specificities of these transformations in the cities of Dourados
(MS) and Rio deJaneiro (RJ).
PALAVRAS-CHAVE: História, Religião, Umbanda.
KEY WORDS: History, Religion, Umbanda.

INTRODUÇÃO
Os estudos sobre a religiosidade afro-brasileira1 vêm sendo
desenvolvidos, predominantemente, ao longo de quase um século,
por especialistas da área de antropologia. As incursões de
historiadores sobre essa temática é nova. Esse interesse tornou-se
possível devido às transformações pelasquais passou a historiografia
a partir da década de 1980. A crise dos paradigmas tradicionais,
dentre eles o marxista, proporcionou um desenvolvimento de novas
teorias, metodologias e métodos com o advento da Nova História.
Para este artigo interessa destacar a aproximação entre as ciências
sociais, o que tornou possível a utilização de conceitos e instrumentos
de pesquisa, antes reservadosisoladamente à cada disciplina.
Esse compartilhar, iniciado com os Annales na década de 1920,
permitiu o alargamento dos objetos a serem pesquisados pelos
historiadores. Um dos resultados mais profícuos dessas aproximações
foi o surgimento da etnoistória que vem permitindo um diálogo entre
disciplinas como a história, a arqueologia e a antropologia. Utilizada
aqui como um método, ela nos proporciona apossibilidade de
analisar a Umbanda tanto no seu caráter sincrônico, o que até pouco

tempo não era pertinente aos estudos históricos, como em seu
caráter diacrônico. Os testemunhos orais, as pesquisas de campo e os
registros arqueológicos passam a fazer parte das fontes pesquisadas
pelo historiador, ao lado de fontes textuais. A multiplicidade dessas
fontes permite uma maior aproximação darealidade histórica que se
busca perceber nas manifestações da Umbanda.
Assim, tateando por caminhos novos para os historiadores, mas
muito promissores, busco analisar como as representações
manifestadas nos terreiros de Umbanda são marcas deixadas por
parte da população brasileira que, sujeito de sua história, vai
esculpindo a sua trajetória através de um diálogo, por vezes
submisso, outras vezesresistente e outras ainda, realizando
combinações com os diferentes grupos sociais brasileiros. Mas,
principalmente, como atores de suas histórias e como tais,
merecedores da atenção dos historiadores que pretendem
compreender e explicar a trajetória histórica da sociedade brasileira.

DUAS CIDADES, DOIS TERREIROS, UMA UMBANDA PLURAL
Após muitos anos convivendo com os terreiros de Macumba*2 ou
Umbanda*na cidade do Rio de Janeiro, desde a década de 1970,
comecei a ter contatos com terreiros em Mato Grosso do Sul, na
cidade de Dourados, a partir do ano de 1994. Muitos dos aspectos do
cerimonial e do ritual dessas duas realidades regionais mantinham
uma fidelidade, aquilo que se coloca como pressupostos mínimos
para que dois terreiros se reconheçam e possam compartilhar de suas
práticasreligiosas.
Pude comprovar a eficácia desse compartilhar quando no ano de
2001 levei alguns membros de um terreiro de Dourados, Tenda
Caboclo Tupinambá, chefiada pelo senhor Sebastião, a uma sessão*
de um centro no subúrbio de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Após um
breve contato entre os membros das duas casas religiosas, teve início
uma sessão de caboclos*, na qual os representantes dos dois centros...
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