O homem que virou suco

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“O Homem Que Virou Suco”, de João Batista de Andrade
(Brasil, 1981)

O homem-boi
"Pra mim viver de esmola, o melhor é São Paulo mesmo."

Na abertura do filme "O homem que virou suco", de João Batista de Andrade, as gravuras iniciais, sob o extenso letreiro, mostram em tons pastéis, a cidade grande, de prédios em cima de prédios, rodeados pe favela de barracos em cima de barracos, pintada emquadro, ainda como algo abstrato, cuja realidade perversa ganha tons acinzentados na derradeira cena do filme, com imagens aéreas da cidade de São Paulo e seus concretos, que agora vão da favela, passando pelas fábricas até o centro; imagens essas que marcam as cenas pelas quais diariamente os personagens reais ilustrados no filme percorrem, da casa ao trabalho, do trabalho às suas casas; e do caminhoobscuro, ainda pouco nítido, que nossa compreensão trilha do inicio do filme até o fim, onde nos é introduzida, aos poucos, a crítica à realidade dos fins da década de 1970 e inicio de 1980 na cidade de São Paulo.
Nesse contexto temporal é notável o crescimento dos fluxos migratórios internos, das regiões nordestinas para o sudeste, da nova noção de espacialidade que é construída comoconseqüência e, portanto, de um novo espaço de sociabilidade, um período de acúmulo de pessoas e investimentos industriais na capital paulista, nosso cenário fílmico, cujas primeiras cenas mostram já a contradição, a favela sobrevoada pela tecnologia.
Assim a narrativa de João Batista de Andrade se torna um documento importante na visualização da problemática da migração nordestina, da luta dos retirantespara sobreviver e das suas dificuldades que vão desde a sua adaptação à nova geografia, à busca de sua identidade, de um emprego e moradia; perpassando ainda os temas relativos ao Trabalho e sua esfera vezes degradante.

Não se trata somente do homem que virou suco, mas do homem que constata esse contínuo esmagar de pessoas, essa cidade grande que, como um turbilhão, faz desaparecer o que há de maishumano nos homens, sua capacidade de pensar, construir-se e compartilhar suas expressões, coisificando-os e homogeneizando seus pensamentos. Daí a beleza do personagem Deraldo, contraditório e turbulento; representante dos migrantes na capital, ele induz à questão da identidade e de ser cidadão, principalmente em um período de movimentos grevistas e crise do proletariado (1979). Deraldo representaa busca por condições melhores de vida nas quais indivíduos que vivem sob leis idênticas deveriam ter direitos idênticos.
É antes a história de um homem que não quer virar suco, que se opõe à pasteurização de sua vida, que luta contra a constante opressão sofrida desde a escolha de seu trabalho que não é considerado trabalho por aqueles que lhe parecem seus iguais em desgraça, até a violência dacidade que não nota sua presença, não distingue sua diferença, e o marginaliza, condenando-o a ator de um crime que nunca cometera, ele seria mais um “Severino de vida Severina ” que não faria falta em meio à sociedade massificadora.
A questão da inadequação do personagem à forma de trabalho que lhe é imposta é tema central de grande parte das cenas do filme. A distância entre poesia e trabalhobraçal é mostrada no filme, não somente sobre o aspecto de suas diferenças óbvias, mas refletindo um pensamento ideológico presente na sociedade, na qual a arte ou o trabalho livre não tem grande valor, são desconsiderados como “trabalho sério”, até mesmo a questão do trabalho intelectual como a produção de poemas entra em conflito com a idéia de estabilidade conseguida em um emprego com salárioregular, com horário de entrada e saída.
Deraldo não se identifica com os operários, o auto-reconhecimento de seu trabalho, seu esforço, sua produção, vai de encontro à idéia de sobrevivência que é alienante. O trabalho é concebido como socialmente necessário, mesmo não sendo individualmente satisfatório, se torna um trabalho alienado, desvinculado do prazer. Não o faz por obrigatoriedade, antes...
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