O duque do desconforto

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  • Publicado : 28 de agosto de 2012
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O ' Leary, da Ryanair, o duque do desconforto

O executivo polêmico que fez de uma pequena aérea regional a maior companhia de baixo custo da Europa

Felix Gillette, Bloomberg Businessweek
"Por que cada avião precisa ter dois pilotos?", pergunta Michael O ' Leary, CEO da Ryanair, maior empresa aérea de baixo custo da Europa. Em sua sala na sede da companhia, marcada pela simplicidade, nosarredores do aeroporto de Dublin, O ' Leary propaga seu sermão, de tênis, jeans e camiseta.
"Sério, só se precisa de um piloto", prossegue. "Vamos tirar o segundo piloto. Deixemos a droga do computador pilotá-lo." Mas e se o piloto tiver um ataque cardíaco? Uma das integrantes da tripulação de cada voo da Ryanair seria treinada para aterrissar o avião. "Se o piloto tiver uma emergência, ele dá oaviso e a chama", diz O ' Leary.
De tempos em tempos, O ' Leary, de 49 anos, solta declarações assim - ideias provocadoras sobre como tornar as viagens mais baratas. É fácil menosprezar seus comentários como desvarios calculados de um caçador de manchetes, mas fazê-lo seria perder a chance de vislumbrar a psique do setor aéreo, normalmente escondida atrás de uma falange de rostos sorridentes. Emmomentos como esse - ou alguns posteriores, como quando O ' Leary explica como gostaria de ver banheiros pagos e áreas com passageiros em pé em todos seus voos - ele dá voz aos instintos mais primitivos de sobrevivência do setor. Ele é o "id" da aviação.
Se os tempos fossem exuberantes, as empresas rivais poderiam se dar ao luxo de ignorá-lo. Nos últimos anos, com grande parte do setor em busca desaídas para sobreviver, a visão subversiva de O ' Leary parece uma alternativa cada vez mais viável ao status quo, ameaçado pela obsolescência, esgotamento e fusões. Ele diz o que os outros pensam e, com frequência, fazem.
Hoje qualquer voo comercial pode deixar você com a impressão de que as empresas o consideram como gado. A diferença é que O ' Leary pode chamar você de gado e explicar comoplaneja trinchá-lo para o jantar. Seus 17 anos no comando da Ryanair vem sendo um grande banquete. Numa era em que a maioria das empresas aéreas pulou de uma crise para outra - desde os ataques de 11 de setembro de 2001 até a erupção do vulcão na Islândia e a recessão mundial -, a Ryanair passou de uma pequena aérea regional para uma potência com 7 mil funcionários, 1,1 mil rotas para 155 aeroportosem 26 países. Em julho, tornou-se a primeira aérea na Europa a transportar mais de 7 milhões de passageiros em um mês.
A companhia tem valor de mercado de US$ 7,2 bilhões, bem acima da rival EasyJet (US$ 2,3 bilhões) e da irlandesa de modelo tradicional Aer Lingus (US$ 612 milhões), mas ainda abaixo de Southwest (US$ 8,29 bilhões) e Delta (US$ 8,22 bilhões). Nos últimos dez anos, em que oprejuízo combinado das empresas aéreas somou quase US$ 50 bilhões, a Ryanair exibiu lucro líquido em nove anos.
Nada disso garante que as fantasias mais desenfreadas de O ' Leary se tornarão realidade, apenas que suas ideias influenciarão as viagens por anos. Por trás de seu sucesso como CEO há uma reavaliação radical da natureza do passageiro. No centro da filosofia de O ' Leary está a ideia de que ospassageiros de voos comerciais não são criaturas delicadas cuja fidelidade depende de travesseiros, cobertores e chá grátis. Na verdade, são feras resistentes - avarentos na hora de comprar as passagens, perdulários no ar - dispostos a enfrentar desconfortos e indignidades, desde que sejam levados a seus destinos, assim como suas malas. A questão que paira não é se o "jeito O ' Leary" será adotadopelas empresas aéreas, mas até que ponto e com que rapidez seu paradigma vai se disseminar.
Em julho de 2002, na Inglaterra, passageiros que embarcavam em um voo da Ryanair com destino a Dublin fora avisados pelo piloto que havia falta de pessoal encarregado de embarcar a bagagem no avião. Haveria um grande atraso, disse o piloto, a menos que passageiros se dispusessem a fazer o serviço. Pouco...
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