O desconforto em amarelo manga e o realismo cinematográfico

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  • Publicado : 12 de abril de 2013
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O desconforto em Amarelo Manga e o realismo cinematográfico

O filme Amarelo Manga (2002), de Cláudio Assis apresenta diversos aspectos da estética realista do cinema. Vamos tentar explorar a ligação deste filme com o realismo cinematográfico por meio da utilização que se faz do elemento corpóreo. Nossa análise se baseará no desconforto corpóreo físico, moral e existencial dos personagens,assim como na abordagem estética do espaço fílmico e da utilização da contingência como forma de posicionamento perante a realidade física. Desconforto aqui não deve ser entendido apenas como ausência de conforto, mas também como indignação, insatisfação, como um posicionamento crítico diante de situações que incomodam. Não deve ser entendido como juízo de valor e sim como uma característica estéticae moral diante da realidade física filmada.

Os corpos (o desconforto físico)
Uma das características do realismo no cinema é mostrar os personagens em situações corpóreas de desconforto como sofrimento, falta de ar, trabalhos desagradáveis, suor, mau cheiro e a presença da morte, entre outras. Elementos que não faltam às personagens. Lígia (Leona Cavalli), proprietária do Bar Avenida,levanta-se nua da cama, coloca um vestido, passa batom, pega um pano de prato e abre o bar. Está trabalhando. Mesmo que na realidade, no mundo físico, ninguém faça isso (normalmente vai-se ao banheiro, bebe-se água, etc) o que importa aqui é que a ligação da personagem com o trabalho é muito forte. Lígia é inconformada com a continuidade das situações cotidianas, apesar da imensa quantidade deacontecimentos que ocorrem durante um dia, as coisas não mudam. A indignação de não ter encontrado alguém que a mereça e a conclusão de que “só se ama errado” reflete seu grau de insatisfação.
Wellington, mais conhecido como Kanibal (Chico Diaz) trabalha em um matadouro, está sempre sujo de sangue, mal cheiroso e não raro com moscas a lhe rodear. Kika (Dira Paes), esposa de Kanibal, é uma crente quevive para Jesus, e enjoa-se só por limpar uma carne para o almoço. Parece que procura levar uma vida distante das necessidades fisiológicas do corpo como o sexo e a alimentação. Provavelmente por isso é tão respeitada e querida pelo seu marido, Kanibal, que está sempre a repetir que “Kika é crente”, como se a religião desse a ela algo que ele não tem, mas que admira.
Isaac (Jonas Bloch) nutre umaestranha relação com a morte. Seu prazer é atirar em cadáveres congelados que Rabecão, seu amigo e funcionário do IML, consegue em troca de maconha. Quando ele recebe o cadáver, sua primeira atitude é tocá-lo com o dedo indicador para sentir a temperatura, depois cheirar o próprio dedo e lambê-lo, para depois encher o ‘presunto’ de tiros. Este procedimento, de toque, cheiro e gosto irá se repetircom o corpo de Seu Bianor no caixão, e depois com Kika quando esta diz estar ‘morta por dentro’. Parece que ele quer sentir o cheiro e o sabor da morte, ele fica flertando com ela. A morte será motivo de temor para outros dois personagens, D. Aurora e o padre. Dona Aurora (Conceição Camarotti), hóspede no Hotel Texas, obesa e com problemas respiratórios parece que está à beira da morte, pois mesmocom seu tubo de ar, tem-se a impressão que ela ficará sem ar a qualquer momento. O padre (Jones Melo) que reclama que sua igreja está falida, as imagens dos santos foram roubadas e são poucos os fiéis  na verdade ele diria que os únicos fiéis são os cães  afirma que gela só em pensar na morte. Dunga (Matheus Nachtergaele) é um homossexual que é ridicularizado por seu amado, Kanibal. Dayse(Magdale Alves) é a amante de Wellington Kanibal e está cansada de ser a outra, a ‘sem vergonha’.
Todos esses personagens, vivem, em alguma medida, uma situação de desconforto físico, de insatisfação. Estão descontentes ou consigo mesmo ou com as relações que mantém.
O ponto máximo do desconforto com relação ao corpóreo é a seqüência do abate do boi. Esse abate é mostrado de maneira tão simples e...
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