O alienista

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  • Publicado : 30 de janeiro de 2013
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O Alienista (Conto de Papéis avulsos), de Machado de Assis
Análise da obra

O Alienista, primeira novela de Machado de Assis maduro. Eis um texto que está entre conto e novela, graças à sua extensão. Vale já pelo sabor de seu humor e ironia. Mas há que se ver na obra elementos típicos da produção realista de Machado de Assis, principalmente a análise psicológica e a crítica social.

Aprimeira edição em livro da obra é de 1882, quando aparece incorporado ao volume Papéis Avulsos. Anteriormente havia sido publicado em A Estação (Rio de Janeiro), de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. É dessa época também Memórias Póstumas de Brás Cubasque se tornaria um verdadeiro ponto de irradiação da obra da segunda fase de Machado de Assis. O Alienista é, sem dúvida, apresenta bastantespontos de contato com esse romance monumental.

Para muitos críticos, O Alienista se classifica como uma novela; sem dúvida, levados pelo número de páginas que em algumas edições, chega a mais de oitenta. Outros, conduzidos pela análise íntima da narrativa, classificam-na entre os contos machadianos, no que estão certos.

Já foi dito que o mergulho machadiano na mente de suas personagens,montando um micro-realismo, torna-o cego para questões sociais. No entanto, o presente conto é prova de que no nosso grande escritor o que ocorre é a soma desses dois campos. A personalidade é influenciada por forças sociais; por sua vez, a sociedade é influenciada por razões psicológicas. Dessa forma, podemos entender a literatura machadiana como expressão de problemas psicossociais.

Dentro desseesquema, pode-se até enxergar uma semelhança entre o autor e o protagonista, Simão Bacamarte, pois, como alienista (entende-se por alienista o médico que se especializava em cuidar de problemas ligados à mente, algo como hoje seria o serviço de um psiquiatra), está preocupado em analisar o comportamento dos habitantes da cidade em que está instalado e como a conduta influencia as relações sociais.O mais interessante é notar aqui o caráter alegórico, ou seja, representativo que a narrativa assume. Tudo se passa em Itaguaí, pequena cidade do interior do Rio de Janeiro, durante o período colonial. Cria-se um clima de “era uma vez, num lugar distante...” Dessa forma, o que se passa nessa localidade é o que no fundo ocorre em toda nossa civilização.

Em O alienista o escritor nos propõe oproblema da fixação de fronteiras entre o normal e o anormal da mente humana. Traçando uma linha rígida de procedimento profissional, o médico Simão Bacamarte aparece como símbolo de uma ciência fria, toda baseada na razão, fechada e sem frestas para a intuição ou a poesia, como caminho de conhecimento.

Todo o conto se desenvolve em tom de austeridade, embora as entrelinhas; o autor nãodescerra os lábios, como aquela falada alegria do alienista, que era “alegria abotoada até o pescoço”. Pintando o Dr. Simão Bacamarte como pessoa inteiramente consagrada aos livros, enfronhado em autores célebres, acatando as prescrições da ciência como dogmas de fé, e confundindo tudo na sua própria ciência, um tanto de cabala, Machado de Assis distribui em torno dessa curiosa personagem central, numadifusa alegoria, figuras secundárias, mas cheias de interesse humano, e todas com papel de responsabilidade na peça.

Nem comédia, nem tragédia. Sutilmente aparecem loucos furiosos, trancados em alcovas, até a morte; loucos mansos, andando à solta pela rua. Isso, antes da chegada do Dr. Bacamarte, que viria descobrir loucura até nas pessoas normais. Aos poucos se vai insinuando no leitor adesconfiança no equilíbrio mental do alienista, em quem a cidade, a principio, acredita, vendo nele a sua grande figura, e, por isso, concordando com a sua ciência, dentro do prolóquio — “de médico e louco todo mundo tem um pouco”.

Para contrastar o grande homem, lá está a esposa, que o ama e lhe admira o saber, desde que permaneça abstrato, teórico, sem aplicação. Por isso, não segue o regime...
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