A tirania do corpo perfeito

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  • Publicado : 6 de abril de 2013
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A Tirania do Corpo Perfeito
Ser bonito(a) e jovem é o exame admissional para a vida social. 

A psiquiatria sempre se preocupou com as influências culturais sobre a saúde mental. Até que ponto os hábitos, costumes e valores sociais influem no desenvolvimento das doenças mentais? Em épocas passadas, as grandes comoções histéricas dominavam os sintomas psíquicos, juntamente com as emoçõesdecorrentes do conflito humano, predominantemente no sexo feminino. Eram produzidas crises onde se misturavam teatralidade humana, bruxaria e influências demoníacas.
Em épocas mais recentes a angústia era traduzida em grandes conversões pseudoneurológicas, como as paralisias, cegueiras e afonias histéricas. Inúmeras paralisias e afonias desse tipo (pré Ressonância Magnética) alimentaram os cultosmilagreiros. A fé era o santo remédio e misturar manga com leite matava de congestão, assim como, olhar no espelho ou tomar banho depois de comer podia entortar bocas.
Sem dúvida, alguma coisa boa aconteceu recentemente com a maior popularização dos conhecimentos psiquiátricos, mesmo considerando os excessos onde, um ou outro autor, procura psiquiatrizar a sociedade e o comportamento humano em geral.A ampliação e divulgação dos conhecimentos neuropsicológicos e os métodos de diagnóstico ajudam a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Um dos exemplos é o que se sabe, mesmo leigamente, em relação à Síndrome do Pânico, Depressão,Transtorno Obsessivo-Compulsivo e outros. Houve uma espécie de desestigmatização da Ansiedade Aguda ou da Angústia Patológica. Sim, porque antes as manifestações daangústia costumavam ser consideradas exemplos de “franqueza mental”, falta de pensamentos positivos, falta de ter o que fazer e coisas do gênero.
Mas hoje, com a universalização dos conceitos psiquiátricos, sabe-se que o estresse e a ansiedade podem acometer qualquer pessoa “de bem”, sem que seja considerada doida ou mentalmente fraca. A Síndrome do Pânico, os Transtornos Fóbicos e outros, defato, representam aspectos do psiquismo humano que acabam sempre encontrando uma via de manifestação culturalmente complacente e aceitável. E atualmente, apesar desses quadros fóbico-ansiosos continuarem sendo os principais responsáveis pela movimentação dos consultórios de psiquiatria, começa a aparecer em crescente velocidade os problemas decorrentes da obsessão pelo corpo perfeito.
Algumasmocinhas já consideram impossível ser felizes e, ao mesmo tempo, mostrar uma dobrinha na barriga quando sentam. Alguns mocinhos sacrificam boa parte da capacidade de aculturação que a natureza nos deu, em intermináveis e obsessivas horas “puxando ferro” nas academias de musculação. Isso sem contar com a comodidade que algumas pessoas gozam por poderem atribuir a um pequeno excesso de gordura na cintura,a um nariz ligeiramente mais profuso ou a um seio menos farto, toda a responsabilidade pelos fracassos em conquistar o sexo oposto. Parece estar havendo uma locação anatômica da felicidade, ora no seio, ora no nariz, ora na balança.
 Pessoas têm como sonho de consumo a cirurgia plástica, a lipoaspiração ou, como se diz, a lipo-escultura(palavrinha mágica que mistura a perda da gordura com umacoisa artística). Algumas pessoas não se envergonham em dizer (não se envergonham por causa do apoio cultural) que se “pudessem fariam uma plástica geral, trocariam tudo, modificariam tudo”. Quer dizer, são pessoas infelizes com o próprio corpo. |   |
O problema não seria grave se a preocupação com o corpo não fosse uma obsessão capaz de escravizar, capaz de entorpecer pessoas em busca de defeitose dobrinhas aqui e ali, imaginando que se tirasse um pouquinho daqui, colocasse um tantinho a mais ali tudo ficaria melhor, mais perfeito, mais sarado.
Alguns podem contra argumentar que a pessoa não tem toda culpa por se submeter a esse escravagismo estético. A censura e a vigilância culturais seriam os grandes carrascos da prisão em estreitas calças jeans a que todos somos submetidos. Mas aí...
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