A terceira margem

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A TERCEIRA MARGEM: O RIO É DA LINGUAGEM?1
RESUMO O trabalho pretende desenvolver uma reflexão que trate do vigor poético presente no conto ―A terceira margem do rio‖, de Guimarães Rosa, apontando seu traço de acontecimento apropriador de verdade, segundo a articulação de silêncio, língua e mundo. Possui o intuito ainda de promover uma compreensão da linguagem poética do conto que extrapole oslimites linguísticos. Assim, a discussão tenderá para uma abordagem distinta daquelas que compreendem a linguagem como representação metafísica do real. Palavras-Chave. Poética. Silêncio. Acontecimento. Abertura. Mundo.

ABSTRACT The work aims at developing a reflection which deals with the poetic vigor present in the short story ―A Terceira Margem do Rio‖, writen by Guimarães Rosa, pointing outits trait of event of truth, according to the articulation of silence, language and world. It still intends to promote an understanding of the poetical language of the short story that exceeds the linguistic limits. Thus, the discussion will tend toward an approach which is distinct from those that understand language as a metaphysical representation of the real. Keywords. Poetic; Silence; Event;Openness; World.

A água do mar é a mais pura e a mais impura: para os peixes, potável e boa para a saúde; para os homens impotável e letal. (HERÁCLITO, Frag. 61)

Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos/estamos e não somos/estamos. (HERÁCLITO, Frag. 49a)

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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012]

1.Molhardas águas

O lugar de fala reivindicado por esta comunicação se posiciona bem longe da pretensão de vir a contribuir com as concepções teóricas já em circulação no âmbito acadêmico sobre linguagem. Atualmente há muitas possibilidades teóricas de compreensão do que seja a linguagem humana e, sendo assim, o pesquisador de linguagem poderá lançar mão desse rico e extenso material. Aqui, o que sepropõe à interrogação é exatamente a existência e o vigor de um suposto não-lugar para a linguagem, ou uma não-linguagem. Mas o que se pretende dizer com não-linguagem e não-lugar da linguagem? O que seria, pois, a terceira margem a que o título deste trabalho se propõe interrogar? Seria a terceira margem pertencente à linguagem? A linguagem é propriamente linguagem quando se põe como uma terceiramargem? Para tratar destas perguntas iniciais seria necessário ganhar um pouco de pé no rio, ganhar certa consistência discursiva, para que a fala não fique circulando em termos exclusivamente teóricos. Nem se quer nos aproximamos ainda dele; encontramo-nos na margem, ainda. O que se pode dizer de cara, é que as interrogações-guia desta experiência encontra fundamento no desejo de não reproduzir umaconcepção de linguagem que se sustente em bases metafísicas. Emprega-se, aqui, o adjetivo metafísica, para designar todo discurso que se pretende representação da realidade. Discurso esse que parte de um lugar definido e determinado da linguagem humana para tentar aderir ao real, discurso que possui a pretensão de se adequar ao movimento de gênese da realidade e explicá-la como se fosse estática,ou fazer coincidir o amorfo movimento do real a uma mera agitação do plano da linguagem humana. Até aqui, temos tão somente linguagem humana e discurso, em suas mais diversas inserções e realizações. A linguagem metafísica não distingue linguagem humana e discurso. Ambas participam da mesma origem: o homem; a dimensão humana. Mas, o que está sendo sugerido quando se diz linguagem humana? Parecehaver aí um pressuposto de que há, também, a possibilidade de compreender a linguagem como sendo algo não-humano?

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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012]

Melhor será, antes de mais nada, molhar os pés nas águas do conto de Guimarães Rosa, A terceira margem do rio, para buscar o fundo necessário que nos garantirá...
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