A sociedde vista do abismo

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 19 (4569 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 31 de dezembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
introdução
Enveredar na discussão acerca da relação entre as categorias Estado e sociedade civil no pensamento de Marx significa apreender a profunda inflexão que o filósofo alemão imprimiu na concepção teórico-política desses que são, utilizando uma expressão lukacsiana, dois complexos sociais fundamentais.
Esta inflexão é o resultado da ampla revisão teórico-crítica operada por Marx ante asprincipais elaborações do pensamento social produzido na modernidade. Sendo assim, a discussão levantada por Marx sobre a relação entre Estado e sociedade civil está intimamente vinculada à crítica da filosofia do direito de Hegel, obra que consubstanciava o ponto alto da produção filosófica alemã.
Hegel, por sua vez, é o representante da ruptura decisiva para com a corrente contratualista. Nopensamento hegeliano não há espaço para a concepção de um eventual contrato, estabelecido de forma voluntária ou compulsória, entre indivíduos que viveriam, hipoteticamente, um estado de natureza, que fosse constantemente ameaçado - como para Hobbes -, ou pacífico - como para Locke e Rousseau.
A essa altura, convém estabelecer a importância das produções contratualistas, uma vez que expressavam oconfronto, no plano teórico, das relações entre as classes sociais no interior do regime feudal. O período histórico que abarca o fundamento social da filosofia contratualista, nos séculos XVII e XVIII, coincide com a época do que Marx, em O capital, denominou de acumulação primitiva de capital (1985, p. 261).
Segundo Marx, essa é a quadra histórica na qual a burguesia, como classe social, começa aadquirir um enorme potencial econômico e político. Para que a burguesia pudesse gozar livremente desse potencial seriam necessárias profundas alterações nas relações sociais do período feudal. Essas alterações teriam como objetivo livrar as relações mercantis das amarras da política do antigo regime.
Os contratualistas estavam comprometidos com o estabelecimento de um ordenamento social quegarantisse direitos à burguesia, direitos esses cerceados pelo absolutismo feudal: de vida em Hobbes, de propriedade privada em Locke, e de liberdade em Rousseau. Assim sendo, é legítimo afirmar que os contratualistas reclamavam o que posteriormente fora denominado de Estado de Direito, isto é, uma forma determinada de relação entre Estado e sociedade civil que garantisse a todos os homens direitosnaturais fundamentais inalienáveis.
Posteriormente, em um texto de 1843 intitulado A questão judaica, Marx deixaria clara a articulação do pensamento liberal-contratualista, presente na chamada Declaração Universal dos Direitos do Homem, com os anseios privados da burguesia como classe social (2009, p. 49).
Afirmar a conexão da produção contratualista com o âmbito mais geral dos anseios daburguesia como classe social não significa escamotear as confluências e diferenças específicas entre cada um dos seus representantes. O conteúdo do pensamento de Hobbes, por exemplo, que defendia o fortalecimento máximo do Estado, difere significativamente do que postulava os traços nitidamente democráticos da filosofia de Rousseau.
Para clarificar o pensamento de Marx acerca das categorias Estado esociedade civil vamos resgatar as linhas mestras da filosofia política jusnaturalista. Este resgate visa acompanhar a construção teórica elaborada por Hobbes, Locke e Rousseau. Do mesmo modo, vamos nos debruçar sobre a guinada operada por Hegel. Em seguida reconstruiremos a análise crítico-revolucionária realizada por Marx.
O legado da filosofia jusnaturalista na elaboração das categorias Estado esociedade civil
A continuidade de nossa exposição requer, como referido, a explanação do núcleo do pensamento dos contratualistas, visando estabelecer a contribuição que eles forneceram para o debate em torno da relação entre Estado e sociedade civil. Para tanto, seguiremos a consecução histórica na qual aparece, em primeiro lugar, a filosofia hobbesiana. Em seguida, o liberalismo político de...
tracking img