A melancolia como produto do entravamento pulsional

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Ac. João Paulo Giacomini Borges
Instituto de Psicologia/UFRGS


A melancolia como produto do entravamento pulsional

Porto Alegre, 9 de julho de 2010

" Ah quanta melancolia! Quanta, quanta solidão! Aquela alma, que vazia, Que sinto inútil e fria Dentro do meu coração! Que angústia desesperada! Que mágoa que sabe a fim! Se a nau foi abandonada, E o cego caiu na estrada – Deixai-os, que étudo assim. Sem sossego, sem sossego, Nenhum momento de meu Onde for que a alma emprego – Na estrada morreu o cego A nau desapareceu". (Fernando Pessoa)



As pulsões habitam o inconsciente humano em uma dinâmica constante. São impulsos que, primordialmente, devem impelir o sujeito às ações que contribuam para sua sobrevivência enquanto organismo e o seu conforto psíquico, em consonância como princípio do prazer (Freud, 1911; 1915). Cada pulsão tem uma fonte, comumente somática, e, uma vez acionado seu circuito, necessita de uma via que, por sua vez, a leve até um objeto eleito; o objeto responde, restituindo o sujeito da libido investida e alimentando, portanto, esse ciclo pulsional. Para melhor explicar o estabelecimento dessa relação com o objeto, visando à satisfação das pulsões,Lacan (apud Quinet, 2002) sugere um circuito em três tempos: tendo como exemplo a pulsão escópica, do olhar, consideraríamos que, no primeiro momento, o bebê olha; no segundo, o bebê se olha; e, no terceiro, o bebê se vê sendo olhado. Ou seja, pressupomos a potencialidade inerente ao órgão de sentido (no caso, o olho, a visão), a tomada do próprio corpo como objeto (auto-erotismo, narcisismoprimário) e, após a Fase do Espelho e a inscrição do Nome-Do-Pai, a partir da percepção do Eu e do Outro, a eleição do objeto e a investida sobre o mesmo. No entanto, não se deve tomar essa organização em momentos ou tempos como etapas de um desenvolvimento: ao longo de toda a vida, o aparelho psíquico funcionará da mesma forma; após a circunscrição do Eu e o estabelecimento do circuito, toda pulsão, atoda vez que for liberada, percorrerá esse mesmo caminho. O ideal de todo sujeito é retornar àquela perfeição narcísica de satisfação plena das pulsões, onde não havia a necessidade do objeto, já que a mãe e o bebê constituíam um só. A partir da ilusão da perda do amor materno, quando da tomada de consciência de sua alteridade desejante, o sujeito vai procurar reconquistar esse prestígio,passando a necessitar da legitimação no Outro. Outro, esse, que irá se descentralizar de seus referenciais personificados, diluindo-se em seus objetos de eleição e na Lei pressuposta no Ideal-do-Ego (Freud, 1914). O sujeito terá sua conduta permeada por esse norteamento durante toda sua vida. Contudo, assim como os tempos pulsionais não constituem estágios, a formação do Ideal-do-Ego não é rígida, e,portanto, vai sendo elaborada com outras assimilações, internalizações e escolhas objetais. É interessante falar nestes três últimos termos-ações, para dar vazão a uma perspectiva de que o sujeito tem sua existência, na verdade, em uma fantasia. Colocando-a no mesmo plano de produção do inconsciente, do sonho e da alucinação, a fantasia pode ser a maneira de satisfazer um anseio por sentido, que épropriedade do aparelho psíquico. Toda a organização em cadeias significantes e o diálogo entre Imaginário, Simbólico e Real têm por objetivo essa acomodação dos estímulos, das idéias e das pulsões em esquemas que permitam ao sujeito compreender(-se) e produzir entendimento. Daí, que todos os elementos que fazem parte da vida de um indivíduo não

passam de representações angariadas no Real e queconstituem o Eu. Isso vai desde a concepção de um significante (como a diferença entre o que é suscitado em mim e o que emerge em você quando ouvimos a palavra “amor”) até o âmbito das relações interpessoais ou, por isso mesmo, interobjetais: um é objeto do outro, e o que sou para mim nunca será o mesmo que aquilo que represento para você, e vice-versa.
“O Eu resulta, pois da ‘sedimentação dos...
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