A liberdade

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ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.


A liberdade

Quando alguém se livra de uma situa­ção constrangedora e desabafa, "Sinto-me livre como um pássaro", sem dúvida está apenas se referindo àquilo que tal expressão simboliza: parece que a imensidão do céu aí está para ser livremente "conquistada", sem obstáculos denenhuma espécie.
Bem sabemos que se trata de uma metá­fora. O pássaro não é um ser livre, mas se encontra determinado pelo instinto de sobre­vivência típico de sua espécie. Não vai "para onde quer", mas para onde precisa ir, a fim de continuar existindo. Seu próprio voo es­tá sujeito às leis da física.
O filósofo alemão Kant brinca com essa ideia, imaginando uma pomba ágil, indignada contra aresistência do ar que a impediria de voar mais depres­sa. Na verdade, argumenta, é justa­mente essa resistência que lhe serve de suporte, pois seria impossível voar no vácuo.

O homem é determinado?
Se o voo livre do pássaro é uma ilu­são, da mesma forma podemos dizer que incorremos em engano semelhan­te ao considerarmos o homem capaz de liberdade absoluta.
Comecemos refletindo sobre ascon­quistas do método científico. Vimos, no Capítulo 7, que a construção do conhe­cimento científico se faz a partir do prin­cípio do determinismo, segundo o qual tu­do que existe no mundo está sujeito à rígida relação entre causa e efeito. E a ciência só se toma possível porque o co­nhecimento da relação necessária entre causa e efeito — isto é, o conhecimento dos determinismos naturais — per­mite adescoberta das leis da natureza, a partir das quais são feitas previsões e desenvolvidas as técnicas.
Transpondo tais considerações do campo da ciência da natureza para o nível humano, não há como negar que também o homem se acha preso a de­terminismos: tem um corpo sujeito às leis da física e da química, é um ser vi­vo que pode ser compreendido pela biologia. Por isso, já no século XVIII, osmaterialistas franceses D'Holbach e La Mettrie reduziam os atos humanos a elos de uma cadeia causai universal.
Temos de admitir inclusive a existên­cia de determinismos psicológicos na atividade psíquica normal e cotidiana, pela qual o homem entra em contato com o mundo para conhecê-lo e reagir afetivamente a ele. Por exemplo, se nos preocupamos com métodos de ensino, é preciso antes compreender osmeca­nismos da inteligência humana tais co­mo memória, invenção, intuição, abs­tração e assim por diante. Por isso, a aprendizagem da aritmética era tão pe­nosa antigamente: desconhecendo-se que o pensamento infantil ainda é con­creto, exigia-se da criança o uso do ra­ciocínio abstrato, cujo desenvolvimen­to só acontece a partir da adolescência.
Watson e Skinner, psicólogos con­temporâneospertencentes à corrente comportamentalista, consideram que o homem tem a ilusão de que é livre, quando na verdade apenas desconhe­ce as causas que agem sobre ele. Com o desenvolvimento da ciência do compor­tamento seria possível conhecer de tal forma as motivações que daria para pre­ver e portanto planejar o comportamento humano. Aliás, é esse o tema de um romance de Skinner, Walden II, onde uma equipe decientistas do comporta­mento dirige uma cidade utópica. (Ver dropes 1.)
Além de todos esses aspectos deter­minantes, podemos acrescentar os determinismos culturais: ao nascer, o ho­mem se encontra em um mundo já constituído, recebendo como herança a moral, a religião, a organização social e política, a língua, enfim os costumes que não escolheu e que de certa forma determinam sua maneira desentir e pensar.
No século XIX, o filósofo francês Tai-ne, discípulo de Augusto Comte, con­siderava que o homem não é livre, mas determinado pelo momento, pelo meio e pela raça. Essa concepção influenciou bastante os intelectuais do século XIX, e a literatura naturalista é uma expres­são de tal concepção. Basta lermos O cortiço e O mulato, de Aluísio de Aze­vedo, para identificarmos as "forças...
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