A genealogia de uma linha de pensamento que culmina com o mito do bom selvagem: léry, montaigne e rousseau.

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  • Publicado : 2 de dezembro de 2011
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A GENEALOGIA DE UMA LINHA DE PENSAMENTO QUE CULMINA COM O MITO DO BOM SELVAGEM: LÉRY, MONTAIGNE E ROUSSEAU.

O encontro dos franceses com os indígenas brasileiros, no século XVI, está longe de ser um capítulo encerrado da era dos descobrimentos. Isto porque, ciclicamente e por motivos diversos, volta à tona o acontecimento que despertou vivas centelhas no imaginário daqueles europeus, de sorteque desde então aquele contato vem sendo vivificado pela literatura, alimentando a memória cultural de um acontecimento tão cheio de significações.
Os autores mais significativos daquela época, Jean de Léry, Michel de Montaigne, Jean Jacques Rousseau defendem a alteridade, o fato de que os selvagens não são o que pensamos ser, que termina por culminar no mito do “bom selvagem”. É neles queiremos enfatizar agora.

1.2 JEAN DE LÉRY

Léry era um homem com um pensamento a frente de seu tempo, o livro “Viagem à terra do Brasil” foi escrito no século XVI e melhor repensado na metade do séc. XVIII. Jean de Lery foi um protestante calvinista francês que permaneceu algum tempo no Brasil, em torno de um ano e meio entre os Tupinambás. Vale lembrar que ele sempre fazia uma confusão entretupinambás e tupiniquins. Longe de procurar convencer os nativos da superioridade da cultura européia e da religião reformada, ele os interroga e, sobretudo, se interroga.
Podemos destacar como um dos elementos principais contido em seu relato, a sua visão do outro. O indígena, no relato de Léry, é visto ambiguamente. As crueldades que o nativo comete não podem ser encaradas como barbárie. As guerrasreligiosas na Europa do século XVI são exemplos de atos tão ou mais cruéis do que aqueles que os indígenas praticam. Entretanto, este aspecto não tira do indígena sua condição de inferioridade em relação a outros povos. Estas ambigüidades evidenciam a transitoriedade entre dois mundos: o medieval e o moderno. Ele julga-os mais francos e verdadeiros que muitos europeus.
Não abominemos, portantodemasiado a crueldade dos selvagens antropófagos. Existem entre nós criaturas tão abomináveis, se não mais, e mais detestáveis do que aquelas que só investem contra nações inimigas de que tem vingança a tomar. Não é preciso ir América, nem mesmo sair de nosso país, para ver coisas tão monstruosas. (LÉRY, 2007, p.204)
Diante de tudo isso, ele procura humanizar os indígenas, comparando-os com oseuropeus atribuindo certa igualdade entre eles e até mesmo criticando alguns atos dos europeus, relativizando assim o que antes se pensava dos ameríndios.

1.3 MICHEL DE MONTAIGNE

Montaigne escreveu seu ensaio “dos canibais” logo depois de Léry, diferentemente dele Montaigne não foi ao Brasil. Para construir suas narrações, além das leituras mencionadas, o filósofo utilizou como fonte ashistórias contadas por um de seus criados, que viveu por dez ou doze anos entre os índios tupinambás, na baía da Guanabara, e de marinheiros que chegavam ao qual ele tinha fácil acesso pelo fato de morar perto do porto. Segundo ele
As pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar sua interpretação e persuadir, não podem deixar dealterar um pouco a verdade. Nunca relatam pura e simplesmente o que viram, e para dar crédito à sua maneira de apreciar, deformam e ampliam os fatos. A informação objetiva nós a temos das pessoas muito escrupulosas ou simples, que não tenham imaginação para inventar e justificar suas invenções e igualmente que não sejam sectárias. (MONTAIGNE, 1991, p. 99)
Montaigne lança as bases para a criaçãodo mito do bom selvagem tendo uma imagem extremamente favorável dos índios. Como Montaigne tenta compreendem-los com critérios da cultura dos próprios ameríndios, ele sequer reprova certas práticas que poderiam prestar-se a discussão, como a poligamia ou a antropofagia. Ele descreve aqueles povos sem emitir julgamento de valor, porque age como um humanista, relativizando assim a diferença de...
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