A crise dos paradigmas

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A CRISE DOS PARADIGMAS NA
SOCIOLOGIA
Problemas de explicação
 
 
Octavio Ianni (*)
A crise da sociologia pode ser real ou imaginária, mas não há dúvida de que tem sido proclamada por muitos. Em diversas escolas de pensamento, em diferentes países, uns e outros colocam-se o problema da crise de teorias, modelos ou paradigmas. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, e em escalacrescente nas décadas posteriores, esse é um problema cada vez mais central nos debates. Além dos êxitos reais ou aparentes, das modas que se sucedem, dos desenvolvimentos efetivos do ensino e pesquisa, da produção de ensaios e monografias, manuais e tratados, subsiste a controvérsia sobre a crise da explicação na sociologia.
Fala-se na decomposição dos modelos clássicos e na obsolescência de noçõescomo as de sociedade, comunidade, capitalismo, divisão do trabalho social, consciência coletiva, classe social, consciência de classe, nação, revolução. Critica-se a abordagem histórica, globalizante ou holística, e preconiza-se a sistêmica, estrutural, neofuncionalista, fenomenológica, etnometodológica, hermenêutica, do individualismo metodológico e outras. Considera-se que os conceitos formuladospelos clássicos já não respondem às novas realidades. Agora, o objeto da sociologia deveria ser o indivíduo, ator social, ação social, movimento social, identidade, diferença, quotidiano, escolha racional.  
Em 1946, na aula inaugural pronunciada na London School of Economics and Political Sciences, T. H. Marshall se mostrou preocupado com a “encruzilhada” na qual se encontrava a sociologia. Astarefas práticas eram urgentes e os recursos teóricos pareciam inadequados. As interpretações herdadas dos clássicos seriam insuficientes para fazer face às urgências da reconstrução social. Em lugar das teorias globalizantes, caberia formular “pontos de apoio intermediário”, de modo a atender aos desafios imediatos, localizados, setoriais, quotidianos, de normalização e ordenamento dos problemassociais.
“Os sociólogos não deviam despender todas as suas energias na procura de generalizações amplas, leis universais e uma compreensão total da sociedade humana como tal. Talvez cheguem lá mais tarde se souberem esperar. Nem re comendo o caminho arenoso das profundezas do turbilhão dos fatos que enchem os olhos e ouvidos até que nada possa ser visto ou ouvido claramente. Mas, acredito quehaja um meio-termo que se localiza em chão firme. Conduz a uma região cujas características não são nem gargantuanas nem liliputianas, onde a sociologia pode escolher unidades de estudo de um escopo manejável, não a sociedade, progresso, moral e civilização, mas estruturas sociais específicas nas quais as funções e processos básicos têm significados determinados” (Marshall, 1967, p. 32). 
Seja emtermos de “pontos de apoio intermediário” conforme Marshall, de “principia media”, segundo Mannheim (1949), ou “teorias.de alcance médio”, na versão de Merton (1951, 1967), o que está em curso é o debate sobre a insuficiência ou obsolescência das teorias clássicas. Debate no qual, aos poucos, se propõem outros temas e metodologias. A problemática sociológica é posta em causa por representantes dediferentes escolas de pensamento, em diversos países. .
 
Essa controvérsia prossegue e generaliza-se. Torna-se uma onda. Bourricaud (1975, p. 584) critica o. “sociologismo”, o “hiperfuncionalismo” e o “realismo totalitário”. Afirma, entre outras observações semelhantes, que “o realismo totalitário continua a constituir o modo de interpretação ao qual, espontânea e implicitamente, recorre amaioria dos sociólogos radicais”. Para superar essas limitações, preconiza a recriação do “individualismo atomístico” herdado do liberalismo e do marginalismo, conforme as contribuições de Mancur Olson, Albert Hirschman e outros. Propõe o conceito de “neo-individualismo”, no qual se admite a existência de “grupos”, “classes” e “sociedades”, entre aspas. Está a caminho das teorias do “individualismo...
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