A ciencia da loucura

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  • Publicado : 18 de outubro de 2012
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O alienista: loucura, poder e ciência

ROBERTO GOMES



Resumo - Este artigo analisa o conto de Machado de Assis, O Alienista, ficção centrada nos delírios de Simão Bacamarte, médico-psiquiatra, nela estão referidas as pretensões e impasses das concepções científicas do século XIX, em particular do Positivismo, que tem vínculos profundos com o nascimento das Ciências humanas. De um lado, asede de explicação rigorosa de seu objeto, no caso, a Loucura, e, de outro, o direito que se arroga de dizer a verdade a respeito da Loucura e do Louco e de agir sobre ele com plenos e legítimos direitos. A obra de Machado denuncia o vínculo entre ciência e poder bem como a usurpação, pelo homem de ciência, do direito que cada um tem de dizer a própria verdade. O que conduz à ironia final: parecehaver mais loucura na pretensão de estabelecer com nitidez a linha divisória entre Razão e a loucura que em perder-se entre seus supostos limites.

1. A imagem vivaz do gênio

Não percamos a imagem preciosa:

"Crispim Soares, ao tornar à casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo aresponsabilidade do regresso. Imagem viva do gênio e do vulto! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras" (Assis, 1979, p. 259)

Imagem viva do Alienista, Simão Bacamarte surge como um moderno cavaleiro andante da ciência. Desbravador, sua vida é feita de rupturas e separações que fariam o vulto sofrer - mas dela as lágrimas esaudades foram banidas. Nada o comove exceto a ciência. Goza apenas das alegrias reservadas a um sábio e sobrevive num mundo dividido. O presente e o futuro. A besta e o gênio. O sábio e o vulgo. A razão e o sentimento.

Afastou-se da corte e das missões que lhe oferece el-rei e descobre que a ciência é seu único emprego e, ltaguaí, seu universo. Não terá filhos - a infertilidade, é óbvio, será deimediato atribuída à sua mulher -, o que não o abala. A ciência é seu lenitivo e entrega-se à tarefa de estudar a patologia mental, a ocupação mais digna de um médico.

Estudará a loucura, classificará seus tipos - e é certo que descobrirá suas causas e o remédio universal. Funda seu continente: a loucura. A recorrência insistente a metáforas geográficas (universo, continente, limites, ilha,oceano) delimita seu campo de luta e sua obsessão: em que lugar poderá desvendar o último segredo da perturbação da mente humana?

"A loucura - ele descobre, ao despedir-se de D. Evarista, que viaja ao Rio - objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente" (p. 260).

Os horizontes do Alienista se ampliam. O espírito humano é umaconcha e, nela, habita uma pérola, a razão. Cumpre abrir a concha, submetê-la ao rigor da ciência, extrair a pérola.

Neste continente a ser conquistado é preciso evitar toda imprecisão, toda delicadeza de distinções: só há um caminho possível, a delimitação exata, científica, dos limites que separam razão e loucura. E a concha se abre (ou não, pois a ciência é uma investigação constante): a saúdemental deve ser entendida como o "perfeito equilíbrio de todas faculdades. Fora daí, insânia, insânia e só insânia" (p. 261).

Cavaleiro andante e desbravador, tomado de "volúpia científica", Simão Bacamarte segue de olhos postos no horizonte: "A ciência é a ciência", afirma, assumindo seus direitos de homem raro, colocado acima do bem mal - não dará explicações de seus atos a seres vulgares. ACasa Verde é um templo e ele o sacerdote: só Deus e os mestres sabem melhor. As críticas a seus atos procedem do vulgo, do presente e do imediato - seu discurso desqualifica os que querem ver nele um delirante, um homem que, por ter estudado demais, perdeu o juízo. De resto, tais críticas só evidenciam o desequilíbrio mental de seus opositores. A ciência, que vive em seu espírito e em cada...
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