Ciencias humanas

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GOMES, Roberto. O Alienista: loucura, poder e ciência. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5(1-2): 145-160, 1993 (editadoT nov. 1994). Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5(1-2): 145-160, 1993 A R em I G O (editado em nov. 1994).

O Alienista: loucura, poder e ciência
ROBERTO GOMES

RESUMO: Este artigo analisa o conto de Machado de Assis, O Alienista. Ficção centrada nos delíriosde Simão Bacamarte, médico-psiquiatra, nela estão referidas as pretensões e impasses das concepções científicas do século XIX, em particular do Positivismo, que tem vínculos profundos com o nascimento das Ciências Humanas. De um lado, a sede de explicação rigorosa de seu objeto, no caso, a Loucura, e, de outro, o direito que se arroga de dizer a verdade a respeito da Loucura e do Louco e de agirsobre ele com plenos e legítimos direitos. A obra de Machado denuncia o vínculo entre ciência e poder bem como a usurpação, pelo homem de ciência, do direito que cada um tem de dizer a sua própria verdade. O que conduz à ironia final: parece haver mais loucura na pretensão de estabelecer com nitidez a linha divisória entre Razão e Loucura do que em perder-se entre seus supostos limites.UNITERMOS: ciência, loucura, poder, O Alienista, Machado de Assis, positivismo.

1. A imagem vivaz do gênio

ão percamos a imagem preciosa: “Crispim Soares, ao tornar à casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita opresente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras” (Assis, 1979, p. 259). Imagem vivaz do Alienista. Simão Bacamarte surge como um moderno cavaleiro andante da ciência. Desbravador, sua vida é feita de rupturas e separações que fariam o vulgo sofrer - mas dela as lágrimas e saudades

N

Este texto se origina de uma palestra proferida no dia 27/04/ 83,durante o Ciclo de Palestras Loucura e Verdade, organizado pela Clínica Quarta Vila, em Curitiba, PR.

Escritor e Professor de Filosofia da Universidade Federal do Paraná. 145

GOMES, Roberto. O Alienista: loucura, poder e ciência. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 5(1-2): 145-160, 1993 (editado em nov. 1994).

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Para evitar repetições, as citações são acompanhadas pelo número depágina da edição de O Alienista que utilizei e que consta das referências bibliográficas.

foram banidas. Nada o comove exceto a ciência. Goza apenas das alegrias reservadas a um sábio e sobrevive num mundo dividido. O presente e o futuro. A besta e o gênio. O sábio e o vulgo. A razão e o sentimento. Afastou-se da corte e das missões que lhe oferece el-rei e descobre que a ciência é seu únicoemprego e, Itaguaí, seu universo. Não terá filhos - a infertilidade, é óbvio, será de imediato atribuída à sua mulher -, o que não o abala. A ciência é seu lenitivo e entrega-se à tarefa de estudar a patologia mental, a ocupação mais digna de um médico. Estudará a loucura, classificará seus tipos - e é certo que descobrirá suas causas e o remédio universal. Funda seu continente: a loucura. Arecorrência insistente a metáforas geográficas (universo, continente, limites, ilha, oceano) delimita seu campo de luta e sua obsessão: em que lugar poderá desvendar o último segredo da perturbação da mente humana? “A loucura - ele descobre, ao despedir-se de D. Evarista, que viaja ao Rio - objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”(p. 260)1. Os horizontes do Alienista se ampliam. O espírito humano é uma concha e, nela, habita uma pérola, a razão. Cumpre abrir a concha, submetê-la ao rigor da ciência, extrair a pérola. Neste continente a ser conquistado é preciso evitar toda imprecisão, toda delicadeza de distinções: só há um caminho possível, a delimitação exata, científica, dos limites que separam razão e loucura. E a...
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