Uso abussivo da maconha

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Um panorama sobre a maconha

Rafael Guimarães dos Santos*

*Biólogo; Mestre em Psicologia – Processos Comportamentais (UnB, Brasília, Brasil); Doutorando em Farmacologia (UAB, Barcelona, Espanha). Endereço eletrônico: banisteria@gmail.com.

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Resumo Trata-se de uma revisão geral sobre aspectos biológicos, farmacológicos, toxicológicos e socioculturais da maconha. Composiçãoquímica; efeitos; endocanabinóides e seus receptores; dependência e toxicidade são os principais tópicos abordados. São discutidos dados científicos contemporâneos sobre o tema visando expandir o conhecimento de pesquisadores e demais interessados e apontar a necessidade de maiores estudos sobre este psicoativo. Uma visão multidisciplinar e mais tolerante é proposta, dada a ineficácia do atual modelointernacional para se lidar com as substâncias psicoativas em geral, pois é predominantemente repressivo. Palavras-chave: Cannabis, maconha, psicoativos.

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1. Introdução 1.1. Histórico
“... a semente de cânhamo comida (...) faz as pessoas caírem num estado sonhador. As folhas secas e transformadas em pó e depois tomadas numa beberagem ou então o dito pó bem seco tomado nolugar de bebido, embriaga as pessoas amigavelmente e sem que aquele que o toma se aperceba. Na Arábia certamente se petrifica e a colocam em pequenos pães, para tomar no lugar do vinho, e ela embriaga”. (Fuchs, 1550, conforme citado em Carneiro, 2002).

Cannabis sp., da família botânica Cannabaceae, é comumente conhecida por maconha, cânhamo, bangue, diamba, pito, fininho entre outros. Estesnomes fazem referência à pelo menos três diferentes espécies: Cannabis sativa, C. indica e C. ruderalis, que se diferenciam por seus hábitos de crescimento, por aspectos morfológicos e possivelmente pela quantidade de princípios ativos (Henman & Pessoa Jr., 1986; Schultes & Hofmann, 1992; Furst, 1994; Spinella, 2001). O uso generalizado de Cannabis parece remontar ao período neolítico, onde háevidências de seu emprego freqüente em rituais xamânicos no nordeste asiático (Schultes & Hofmann, 1992; MacRae, 2004). Ao que as pesquisas indicam, a planta é proveniente da Ásia Central, logo acima da Índia, de onde teria se espalhado para a Ásia Menor, África e Europa. A maconha teria sido levada pelos espanhóis para o México, Chile e Peru no século XVI, e pelos franceses e inlgeses para o Canadá enordeste norte-americano, respectivamente, no século XVII. Possivelmente foram os citas que a levaram para a China, onde existem registros de seu uso pelo imperador Shen-Nung no compêndio de ervas medicinais denominado Pên-Tsao Ching, que data de 2737 a.C.. Também há evidências chinesas que datam de 2698-2599 a.C., em um tratado médico chamado Nei-Ching, atribuído ao

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imperadorKwang-Ti, e de 1500 a.C., no tratado médico denominado Rh-Va (Abanades, 2005; Cavalcanti, 2005). O conhecimento da maconha pelo homem existe, provavelmente, desde a descoberta da agricultura, a cerca de 10 mil anos atrás, mas pode ser mais antigo (Schultes & Hofmann, 1992). Segundo MacRae (2005), a maconha possivelmente foi uma das primeiras substâncias a serem usadas como incenso, ainda noséculo IX a.C., pelos assírios. Tradições da Índia afirmam que os deuses mandaram a planta da maconha para que os homens se livrassem do pecado, tivessem coragem, boa sorte, contentamento e aumento dos desejos sexuais. Macrae (2005) afirma que os Vedas indianos, que parecem datar de aproximadamente 2000 a.C., já relatavam o uso de Cannabis como um néctar divino. Além disso, a planta foi consagrada aodeus hindu Shiva, e é tida como a bebida favorita do deus Indra. Encontramos o uso de Cannabis associado à espiritualidade hindu, por exemplo, quando nos referimos aos sadhus, homens santos que vivem nas cavernas e florestas, que fumam a resina da planta em seus chillums, ou cachimbos, e denominam o psicoativo por bhang (Robinson, 1999). Ainda na Ásia, encontramos o uso de Cannabis associado à...
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