Um ensaio sobre a cegueira

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  • Publicado : 13 de novembro de 2012
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UM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

“A cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu”. Esta frase está presente de uma maneira sutil e quase despercebida nas páginas do livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, que em princípio podemos julgá-la muito obvia, pois na frieza de uma apreciação rígida, distante de qualquer subjetividade, na crua compreensão do mundo, oproblema da cegueira são apenas os olhos do cego. Olhos não aptos a cumprirem suas devidas funções. Ver. E realmente aí está a deficiência. Mas será obvio mesmo tal raciocínio composto por palavras tão simples, ou tal simplicidade guarda um substrato mais profundo, como um efeito químico em que substâncias distintas se organizam a produzir outra diferente e inusitada. Penso, realmente, que seresescritores como Saramago são verdadeiros químicos, pra ser mais preciso, alquímicos, conhecem com profundidade os elementos de sua língua, matéria prima disposta às paixões, e os manipula eximiamente, formando novas células sensitivas aos olhares leitores. E como posso entender os olhos, apenas como olhos, se discorro este meu insignificante texto evidenciando olhares, olhos apenas como olhos estão,creio eu, para especialistas em olhos, os oftalmologistas, que apesar de seu ofício pragmático em relação a este órgão tão frágil, os olhos, também lançam olhares além daquilo que os olhos podem ver, mas isso se os entendermos como pessoas, ocultarmos sua profissão. Aliás, essas profissões da medicina são muito estranhas a meu ver. Será que os oftalmologistas captam a poesia do olhar. Será que osotorrinolaringologistas ou os pneumologistas saboreiam um beijo. E como será a sensualidade da mulher para os olhos do ginecologista, será que ele se excita com a imagem desnudada de uma jovem fêmea da sua espécie, focando-se entre o umbigo e as coxas de uma bela senhorita de pele saudável, passivamente entregue à cópula, sem qualquer oferecimento direto. Ou para começar uma ereção serianecessária uma intenção. Serão estes os verdadeiros românticos ou os eternos insatisfeitos sexuais. Tai algo que não consigo ver. Poderão ser meus olhos, estes que habitam a cara desta cabeça grande desde que nasci que me cegam dessa maneira, ou isso não é exatamente uma cegueira. O cego pode ser o doutor, um cego que, ao invés da escuridão comum aos cegos ou da brancuridão dos cegos de Saramago, nãoenxerga devidas formas de maneira abrangente, de inúmeras significâncias, mas de significado puro, único, técnico, profissional. Ser cego pra ser profissional. Esses dias li um poema de Drummond que dizia, “Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas”. Assim como eu, tenho absoluta certeza que este genial poeta

nunca seria um ginecologista, nem qualquer outra coisa que o obrigasse enxergar coisasdesejosas apenas como coisa, sem alma alguma. Outra maneira de entender a frase de Saramago seria responsabilizar o cego pelos olhos que tem, já que esta é uma questão privada entre estes. Algo cruel se pensarmos em convívio social, um pequeno passo para que abandonemos qualquer cego que cruze nosso caminho e dizer, Porque que cego teima em sair de casa. Ora, sai de casa pelo mesmo motivo quequalquer cego sai, para encontrar o que ainda não viu. Desta maneira, cegos, fisicamente ditos, têm muito mais razão a desbravar os hostis espaços deste mundo incerto. Apenas me entendendo como cego é que encontro razão para prosseguir, se tudo me fosse esclarecido não haveria excitação em desvelar nada, pois já estaria assim, às vistas. Neste caso a essência da vida está nesta parcial cegueira quenos toma durante nossa jornada existencial. Podemos aplicar este olhar aos oftalmologistas, otorrinolaringologistas, pneumologistas, ginecologistas, e outros agentes diretos do objeto poético em potencial e que estão sempre dispostos a permanecerem inertes a eles, Se sim, a cegueira não nos será de todo mal, ela habita, de forma diversa, todos os olhos existentes. Apenas os existentes, pois,...
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