Trovadorismo

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Poesia e poder – o trovadorismo ibérico no século XIII e a poesia satírica

José D’Assunção Barros (UFRRJ)

RESUMO: No século XII, nos reinos de Portugal e Castela, existiu um movimento trovadoresco extremamente interessante no qual a poesia era expressa através do idioma galego-português. O objeto deste artigo será discutir as relações entre Poesia e Poder, examinando as tensões sociais dassociedades medievais ibéricas através da prática e poesia destes trovadores galego-portugueses. Depois de uma discussão inicial sobre as possibilidades de compreender as relações de poder na poesia medieval ibérica, são apresentados os modos de circulação e disseminação da poesia trovadoresca nos ambientes palacianos das cortes medievais ibéricas. O principal objetivo do texto é discutir asrelações sociais e políticas envolvidas nas cantigas trovadoresca. Palavras-chave: Poesia e poder; trovadores medievais; tensões sociais. ABSTRACT: In the XIII century, in the kingdoms of Portugal and Castela, there was an extremely interesting troubadour’s movement in witch one the poetry was expressed in the galego-portuguese language. The subject of this article will be to discuss the relations betweenPoetry and Power, examining the social tensions of the medieval Iberian society among these troubadours practice and poetry. After an initial discussion about the possibilities of understands the relations of power in the medieval poetry, it is presented the circulation and dissemination of the troubadour’s poetry in the ambient of the medieval Iberian courts. The principal objective of the textis to discuss the social and political relations involved in the troubadour’s chants. Keywords: Poetry and power, Medieval troubadours; social tensions.

Em um dos textos de A Gaia Ciência, o filósofo Friedrich Nietzsche (1981: 100) levanta a instigante hipótese de que a origem da poesia está diretamente ligada ao desejo de se exercer um poder – o que de resto, acrescentaria mais tarde MichelFoucault, é também a origem de qualquer forma de conhecimento (1974: 2). Foi porque pretendia exercer um poder sobre o outro, sobre os deuses ou sobre as forças da natureza, que o homem “fez penetrar o ritmo no discurso, esta força que reordena todos os átomos da frase, que compele a escolher as palavras e dá nova colocação ao pensamento”. A poesia é, pois, a mais encantadora das formas de dominaçãoinventadas pelo homem. Quer se concorde ou não com tal hipótese sobre a origem da poesia, o fato é que esta tem sido no decurso da história freqüentemente apropriada como instrumento de poder; em outros casos, como arena livre onde forças diversas se digladiam, onde são desencadeados tanto conflitos individuais internos ao homem como conflitos sociais que o

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circundam. A poesia acolhe indistintamente os poderosos e os que a estes se opõem: a um poeta é por vezes dada a licença para dizer, sob o manto protetor do ritmo e das imagens poéticas, o que jamais poderia ser dito em prosa corrente. Ou, em outros casos, mesmo quando um poeta termina seus dias na masmorra, as suas canções conseguem circularlivremente. Com a ousadia de penetrar no misterioso reino das metáforas poéticas, poderíamos acrescentar que o ‘fio da voz’ é ainda mais cortante que o ‘fio da espada’. Enquanto esta corta a matéria, a poesia corta o simbólico, invade o imaginário e o submete ao poder daqueles que detém o verso. E a partir daí – porque não ir mais longe? – estabelece também o seu senhorio sobre a matéria. A consciênciade que poesia é poder pode ser por vezes surpreendida nos próprios textos poéticos, ou ainda nos que se propuseram, em todos os tempos, a tentar compreendê-los. Em 1290, o intelectual citadino Jean de Grouchy descrevia no seu De Musica os efeitos buscados por certas ‘canções de gesta’:

Este canto se destina a ser executado em presença de velhos, de obreiros, e do vulgo, quando eles repousam...
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