Trabalhos

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 22 (5360 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 9 de abril de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
III
Golias
No sábado da semana seguinte
àquela em que a filha do general recebera
como marido o grave e giboso Genelício,
glória e orgulho do nosso funcionalismo
público, Olga casara-se. A cerimônia
correra com a pompa e a riqueza
acostumada em pessoas de sua camada.
Houve uns arremedos parisienses de
corbeille de noiva e outros pequenos
detalhes chics, que não aaborreceram,
mas que não a encheram lá de satisfação
maior que as noivas comuns. Talvez nem
mesmo essa ela tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de
uma determinação certa de sua vontade.
Continuava a não encontrar dentro de si
motivo para aquele ato, mas,
aparentemente, nenhuma vontade
estranha à sua influíra para isso. O marido
é que estava contente. Não seria muito
com a noiva,mas com a volta que a sua
vida ia tomar. Ficando rico e sendo
médico, cheio de talento nas notas e
recompensas escolares, via diante de si
uma larga estrada de triunfos nas posições 184
e na indústria clínica. Não tinha fortuna
alguma, mas julgava o seu banal título um
foral de nobreza, equivalente àqueles com
que os autênticos fidalgos da Europa
brunem o nascimento das filhas dossalchicheiros yankees. Apesar de ser seu
pai um importante fazendeiro por aí, em
algum lugar deste Brasil, o sogro lhe dera
tudo e tudo ele aceitara sem pejo, com o
desprezo de um duque, duque de
plenamentes e medalhas, a receber
homenagens de um vilão que não "roçou
os bancos de uma Academia".
Julgava que a noiva o aceitara pelo
seu maravilhoso título, o pergaminho; éverdade que foi, não tanto pelo título, mas
pela sua simulação de inteligência, de
amor à ciência, de desmedidos sonhos de
sábio. Tal imagem que dele fizera, durara
instantes em Olga; depois foi a inércia da
sociedade, a sua tirania e a timidez natural
da moça em romper que a levaram ao
casamento. Tanto mais que ela, de si para
si, pensava que se não fosse este, seria
outro a eleigual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ela não ia para a
igreja, em virtude de uma determinação
certa de sua vontade, embora sem 185
perceber o constrangimento de um
comando fora dela.
Apesar da pompa, esteve longe de ser
uma noiva majestosa. Não obstante as
origens puramente européias era pequena,
muito mesmo, ao lado do noivo, alto,
erecto, com uma fisionomia irradiantede
felicidade; e, desse modo, ela desaparecia
dentro do vestido, dos véus e daqueles
atavios obsoletos com que se arreiam as
moças que se vão casar. De resto, a sua
beleza não era a grande beleza – aquela
que nós exigimos das noivas ricas,
segundo o modelo das estampas
clássicas.
No seu rosto, nada de grego, desse
grego autêntico ou de pacotilha, ou
também dessa majestade deópera lírica.
Havia nos seus traços muita irregularidade,
mas a sua fisionomia era profunda e
própria. Não só a luz dos seus grandes
olhos negros, que quase cobriam toda a
cavidade orbitária, fazia fulgurar o seu
rosto móbil, como a sua pequena boca, de
um desenho fino, exprimia bondade,
malícia e o seu ar geral era de reflexão e
curiosidade. 186
Ao contrário do costume, nãosaíram
da cidade e foram morar em casa do
antigo empreiteiro.
Quaresma não fora à festa, mandara o
leitão e o peru da tradição e escrevera
uma longa carta. O sítio empolgara-o, o
calor ia passar, vinha a época das chuvas,
das semeaduras, e não queria afastar-se
de suas terras. A viagem seria breve, mas
mesmo assim, perdendo um dia ou dous,
era como se começasse a desertar dabatalha.
O pomar estava todo limpo e já
estavam preparados os canteiros da horta.
A visita de Ricardo veio distraí-lo um
pouco, sem desviá-lo contudo dos seus
afazeres agrícolas.
Passou um mês com o major, e foi um
triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de
forma que todo o município o disputava e
festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir à vila.
Ficava a quatro quilômetros...
tracking img