Trabalho e seus sentidos

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1 O TRABALHO E SEUS SENTIDOS. Ricardo Antunes I- Dimensões da Crise Estrutural do Capital e suas Respostas. A crise que aflorou em fins de 60 e início de 70 - que em verdade era expressão de uma crise estrutural do capital - fez com que, entre tantas outras conseqüências, o mundo produtivo implementasse um vastíssimo processo de reestruturação, visando a recuperação do seu ciclo de expansão e, aomesmo tempo, recompor seu projeto de dominação societal, que foi abalado pela confrontação do trabalho dos anos 60, que questionou alguns dos pilares da sociabilidade do capital e de seus mecanismos de controle social. Deflagrou-se, então, um conjunto de transformações no próprio processo de produção de mercadorias (Kurz, 1992), através da constituição das formas de acumulação flexível, dasformas de gestão organizacional, do avanço tecnológico, dos modelos alternativos ao binômio taylorismo/fordismo, onde se destaca especialmente o "toyotismo" ou o modelo japonês. Estas transformações, decorrentes da própria concorrência intercapitalista (num momento de crises e disputas intensificadas entre os grandes grupos transnacionais e monopolistas) e, por outro lado, da própria necessidade decontrolar as lutas sociais oriundas do trabalho, acabaram por suscitar a resposta do capital à sua crise estrutural. Opondo-se ao contra-poder que emergia das lutas sociais, o capital iniciou um processo de reorganização das suas formas de dominação societal, não só procurando reorganizar em termos capitalistas o processo produtivo, mas procurando gestar um projeto de recuperação da hegemonia nasmais diversas esferas da sociabilidade. O fez, por exemplo, no plano ideológico, através do culto de um subjetivismo e de um ideário fragmentador que faz apologia ao individualismo exacerbado contra as formas de solidariedade e de atuação coletiva e social. (Bihr, 1998) Estas mutações, iniciadas nos anos 70 e em grande medida ainda em curso têm, entretanto, gerado mais dissenso que consenso. Segundoalguns autores, elas seriam Este texto retoma idéias apresentadas e desenvolvidas em nosso livro Os Sentidos do Trabalho, Boitempo Editorial, São Paulo.
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2 responsáveis pela instauração de uma nova forma de organização industrial e de relacionamento entre o capital e o trabalho, mais favorável quando comparada ao taylorismo/fordismo, uma vez que possibilitaram o advento de umtrabalhador mais qualificado, participativo, multifuncional, polivalente, dotado de uma "maior realização no espaço do trabalho". Esta interpretação vem encontrando muitos seguidores que, mais ou menos próximos à tese da especialização flexível, defendem as chamadas "características inovadoras" da "nova fase", mais apropriada a uma interação entre o capital e o trabalho e, neste sentido, superadora dascontradições básicas constitutivas da sociedade capitalista. Segundo outros, as mudanças encontradas não caminhariam na direção de uma "japonização ou toyotização da indústria", mas sim estariam intensificando tendências existentes, que não configurariam, portanto, uma nova forma de organização do trabalho. Ao contrário, no contexto das economias capitalistas avançadas, seria possível perceberuma reconfiguração do "poder no local de trabalho e no próprio mercado de trabalho, muito mais em favor dos empregadores do que dos trabalhadores." (Tomaney, 1996: 157/8 Ver também Pollert, 1996, Stephenson, 1996, Ackers, Smith e Smith, 1996, entre outros). Ainda que próximos deste enfoque crítico, outros autores procuram acentuar tanto os elementos de continuidade com o padrão produtivo anterior,como também os elementos de descontinuidade, mas retendo o caráter essencialmente capitalista do modo de produção vigente e de seus pilares fundamentais. Neste universo temático, tematizam acerca da necessidade de se apontar para a especificidade destas mutações e as conseqüências que elas exercem no interior do sistema de produção capitalista, onde estaria ocorrendo a emergência de "um regime de...
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